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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Cláudio Chicao

Milícia tem mais poder que tráfico no RJ, diz professor

Sociólogo que estuda violência na Baixada Fluminense há 25 anos diz que as milícias têm alta penetração na política e na economia


ALVES, DA UFRJ: o Estado foi o organizador das milícias no Rio de Janeiro / Divulgacão (/)



"A intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro completou um mês na sexta-feira em meio a questionamentos sobre sua eficácia e protestos contra sua continuidade diante do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), morta na última quarta-feira 14, em pleno centro da cidade.


Com um mês desde seu início, a intervenção ainda fez pouco para mudar o quadro de violência, provocado, segundo analistas, por um cenário complexo de disputa entre forças do estado, traficantes e milícias. Segundo um levantamento do portal G1, grupos milicianos têm sob sua influência áreas de 11 municípios na região metropolitana do Rio, onde vive um total de 2 milhões de pessoas. Originalmente compostos por policiais civis e militares, bombeiros e agentes penitenciários, esses grupos armados controlam diversos negócios (como distribuição de água e gás), funcionando como um estado paralelo.
Até agora, a intervenção militar não realizou nenhuma ação nas áreas controladas pelos milicianos. EXAME Hoje conversou com o sociólogo, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor do livro Dos Barões ao Extermínio: a História da Violência  na  Baixada Fluminense, José Cláudio Souza Alves, sobre a atuação das milícias na Baixada, região com os piores números de violência do Estado.
Quando as milícias começaram a atuar na Baixada Fluminense?
A partir de 2004 já começam a aparecer alguns registros. A partir de 2007 as milícias se formaram em imagem e pensamento na Baixada com informações mais claras dos procedimentos e modo de funcionamento. E é a partir de 2010 que há um crescimento exponencial. Em 2016, na última eleição municipal, já havia informações de toda uma expansão e participação das milícias na política e de controle de muitos negócios. Hoje temos esse quadro de penetração na economia e na política muito grandes.
Qual é a situação atual? Os grupos ainda estão em expansão na Baixada?
Sim, estão em luta por expansão, por controle territorial, controle de negócios, o que inclui também o próprio tráfico de drogas. Essa dicotomia entre tráfico e milícia quase não existe. As milícias fazem vendas diárias de drogas e acordos com facções de traficantes. A facção que tem mais acordo com as milícias é a do Terceiro Comando Puro, mas isso não impede que outras façam acordos. E isso acontece na Baixada como um todo.
Quais outros negócios estão na mão das milícias?
Venda de água, de gás, de aterro, locação para lixões clandestinos, venda de área para campanha eleitoral. A gama de negócios das milícias é muito grande e tem se ampliado. Em alguns lugares eles vendem propriedades de terras, lotes de terras e cada negócio desses vai se articulando com o outro. Você vê o caso da Marielle, ela foi assassinada num estado supostamente de direito, mas como é uma rede muito bem conectada, você pode ser morto não em função de uma denúncia que você fez de um comportamento policial, mas sim porque acabou atingindo a ponta de algum desses negócios.
Qual a dimensão do volume de dinheiro que estamos falando?
Só para dar uma ideia: em Duque de Caxias, a milícia controla uma empresa de terraplenagem e, para cada caminhão que chegava, cobravam 1.000 reais. Chegavam mais de 30 caminhões por dia, são mais de 30.000 por dia só com esse negócio em uma área. O volume de interesse e de dinheiro é muito alto e eles vão matar para manter esses interesses, é assim que a milícia opera. A base da milícia sempre foi grupo de extermínio, a milícia é uma sofisticação do grupo de extermínio.
De mais ou menos quantos grupos milicianos estamos falando?
É muito disputado. A Baixada é muito grande, em cada área há diferentes grupos disputando o controle. Em Duque de Caxias, que é o maior município da Baixada, com 1 milhão de habitantes e 3 bilhões de orçamento da prefeitura, há um grupo que funciona como um estado e tem o controle total de dois bairros: Pilar e São Bento. Lá, a milícia vende terrenos, água, aterro, espaço para jogar lixo clandestino… Eles inclusive têm cargos na prefeitura. Não há nada que arranhe essa estrutura toda. É uma base eleitoral absurda, conseguiram eleger vereadores e estão desmontando a área de proteção ambiental, a APA Morro do Céu, com a invasão e venda de lotes. Infelizmente, os interesses dele são muito grandes, por isso que o que aconteceu não é nada. Estamos falando de situações de poder político e econômico muito elevados.
Como chegamos a essa situação? Que fatores explicam o avanço das milícias?
Estamos falando de uma região onde a atuação de grupos de extermínio vem do final dos anos 1970. Com a ditadura civil-militar, a polícia ganhou o status de força auxiliar repressora ostensiva, da forma que ela é até hoje. A partir desse momento surgem os esquadrões da morte na Baixada, financiados por empresários e comerciantes da região que usavam esses grupos para proteger seus interesses, resolver problemas locais. O apoio político para esses grupos operarem foi dado pela ditadura. Esse é o primórdio desses grupos que vão virar uma máquina de matar e explodir a partir dos anos 1970. Isso ganhou um novo patamar quando, nos anos 1990, vários desses matadores se elegem para cargos públicos, em Belford Roxo e em Duque de Caxias, por exemplo. Esses matadores fizeram uma espécie de lavagem de suas cidadanias ao se elegerem: se tornam políticos, não se envolvem mais com matanças, mas têm gente que mata por eles. Essa é a trajetória de vários homens na Baixada. O que as milícias fizeram foi dar continuidade a isso, mas incorporando uma dimensão de controle de negócios. Ou seja: o estado não foi corrompido, nem deturpado, nem sequestrado. Não é uma ausência de estado. O estado é o organizador. Prefeitos, vereadores, até o judiciário já esteve aqui dando carteirinha para os matadores, e depois as milícias, atuarem. É uma estrutura atuando desde a década de 1970 de maneira intocada. Com as milícias, tudo isso ganha uma sofisticação ainda maior.
Como o assassinato de Marielle pode ser compreendido neste contexto?
Ela denunciou a atuação do 41º Batalhão da Polícia Militar em Acari. Mas o que o Terceiro Comando Puro vende de drogas em Acari é uma estupidez.  Um quilo de cocaína custa 6.000 reais na Bolívia. Chega em Acari, é batizado com pó de mármore, talco e fermento para bolo e vira 47.000 reais no varejão. Agora, imagine uma favela do tamanho de Acari e quantas toneladas estão vendendo de droga por semana. Não existiria nem tráfico, nem comandos, nem milícia, se não fosse a estrutura que a polícia tem no Rio. O que acontece em Acari é um acordo. Como é que alguém vai atrapalhar o terrorismo que a polícia está fazendo com os moradores? Ninguém vai fazer isso, ninguém vai permitir que uma favelada, mulher, de esquerda impeça isso.
Há relatos que apontam uma mistura entre tráfico e milícia. Onde está a diferenciação?
Um traficante nunca vai ser um candidato. Existe uma diferença muito grande. O traficante nunca vai ter uma carreira de ascensão. No máximo, vai ser preso e vai controlar a facção da prisão. O Fernandinho Beira-Mar conseguiu colocar oito parentes dele na Câmara de Caxias, mas isso é o máximo. O traficante está restrito na escala de poder à área onde ele está.  Mas eles não conseguem eleger pessoas como a milícia. A milícia tem um poder maior, muito superior, não tem comparação.
Inicialmente, as milícias eram formadas por agentes do estado, como policiais e bombeiros. Esse perfil mudou? Qual é o perfil atual especificamente na Baixada?
Na Baixada está mudando bastante, a partir da milícia Liga da Justiça, de Campo Grande, que está expandindo para o Rio de Janeiro como um todo. Está havendo um “civilismo” cada vez maior dentro da milícia, agora civis estão sendo regimentados com muito mais intensidade na Baixada, em Itaguaí, Seropédica e na Zona Oeste, onde há uma série de relatos de milicianos civis. O miliciano PM da estrutura policial ganha em torno de 400-450 reais por semana. O miliciano civil ganha em torno de 700 reais.
Por que essa diferença?
Porque o miliciano policial opera por dentro, o salário dele como policial já está computado dentro dessa própria estrutura — para dar dimensão de como está tudo conectado com o estado. O civil não, ele vai depender única e exclusivamente do soldo da milícia, por isso ganha mais. Essa miliciação da estrutura policial possibilita que o tempo de trabalho do policial miliciano também seja de trabalho para a própria milícia. A mais-valia criminosa do policial é muito eficiente. É um negócio muito sofisticado. Eles têm hierarquia de funcionamento seguindo a hierarquia da própria estrutura policial.
Qual foi o efeito das UPPs na Baixada?
Com as UPPs, a Baixada virou um grande cenário de negócios. Elas tiveram o efeito de reorganizar o cenário do crime organizado no Rio de Janeiro, o tráfico veio para cá e começou a disputar as mesmas áreas com as milícias. É aí que o número de homicídios explode. Na Baixada se mata o dobro, em termos proporcionais, que no Rio de Janeiro. A grande reconfiguração que as UPPs trouxeram foi causar essa disputa com as milícias, que ao controlar as áreas aumenta o número de negócios e os negócios crescem, se transformando num mercado absurdo e incontrolável. Em Seropédica, o número de homicídios aumentou 155% de 2014 para 2015, porque o Comando Vermelho comandava áreas aqui que a milícia viu potencial e isso vira disputa, vira negócio. Então a milícia veio executando traficantes. A milícia que controla Seropédica levou uns três anos para conseguir estabilizar o controle na região, tomavam as favelas do Comando Vermelho, que conseguia tomar de volta, daí era conflito, morte… Até que em março de 2017, a milícia tomou de vez e o Comando Vermelho desapareceu daqui e até agora não voltou.
Há solução para o problema? O que o estado está fazendo e o que deveria fazer?
Não se pode dar respostas isoladas em uma só direção. Políticas públicas nas áreas que foram abandonadas é um começo, todo aquele leque que já conhecemos e protegeriam um pouco essa população para não ter que depender da grana do tráfico. Só que o estado não investe nada. A mudança que teria que ser uma ruptura total com toda essa estrutura do estado. Mas como vai fazer isso? Não estamos em uma situação favorável. O máximo que podemos fazer é tentar mostrar que é uma estrutura muito mais complexa e sofisticada do que parece.

Link:
https://exame.abril.com.br/brasil/alves-da-ufrj-milicia-tem-poder-maior-que-o-trafico-no-rj/

quarta-feira, 7 de março de 2018

Segurança por Hélio Luz

Resumé

1 -
"Os diagnósticos incisivos de Hélio Luz, ex-chefe da Polícia Civil no Rio, ficaram marcados na memória de quem, há quase 20 anos, o assistiu no documentário "Notícias de Uma Guerra Particular", descrevendo uma polícia que foi "criada para ser violenta e corrupta" e teria papel de "garantir uma sociedade injusta".

2 -
"Como você mantém os excluídos todos sob controle, ganhando R$ 112 por mês? Com repressão", disse aos diretores João Moreira Salles e Kátia Lund, na época em que chefiava a Polícia Civil fluminense, entre 1995 e 1997, referindo-se ao valor do salário mínimo de então.

3 -
"Por que cercar a favela, se o crime não está ali? O cerne da questão da insegurança não está ali. Aquilo ali é o resultado", afirma, considerando que os "meninos que estão no tráfico" são produto da desigualdade social.

Luz considera que a intervenção federal pode trazer benefícios se deixar de lado ações ostensivas nas favelas - que equivalem a "enxugar gelo" e estigmatizam os moradores - e trabalhar para recuperar as estruturas policiais, neutralizando a ação de agentes corruptos e fazendo com que os "mocinhos" - integrantes do sistema de segurança - façam jus à designação popular.

4 -
"Mas acho que temos que ter uma discussão mais consequente. Estamos falando do problema de segurança da população do Rio. Há uma questão real e podemos ter uma conversa séria sobre isso.

4 -
BBC Brasil - O mocinho é o policial?

Hélio Luz - Não só o policial. São os integrantes do sistema de segurança que operam no Estado do Rio. Pode ser bombeiro, agente penitenciário, policial rodoviário. É preciso transformar o mocinho em mocinho.

Crime organizado pressupõe atuação a nível nacional, formação de um cartel e inserção nos poderes da República. O que denominam "bandidos" no Rio, e tenho ojeriza a isso, não é crime organizado. O tráfico no Rio não é cartelizado e disputa permanentemente a área geográfica. Não tem um exército ou integrantes constantes. Tem muitos problemas internos.

O pessoal não percebe que isso é um produto da sociedade. Esses meninos que estão no tráfico são um produto direto nosso, da classe média, dos detentores do poder desse país.

BBC Brasil - São um produto da desigualdade social?

Hélio Luz - São um produto da concentração de renda. E não venha me dizer que a Índia ou outros países com desigualdade não têm esse problema. Aqui é diferente, pô. O nosso nível de concentração de renda é muito alto e resulta nisso.

A favela é produto nosso. Como é que não é produto dos que detêm o poder? Como é que não é produto da classe média? É produto meu. Como é que eu tenho aposentadoria integral e não tenho responsabilidade sobre a favela? Para eu ter meus privilégios, tem que existir favela. Isso é óbvio. O dinheiro público é um só. Se eu abocanho uma maior parte, falta do outro lado. Não há saída para isso.

Ele (o general) tem condição de recuperar as estruturas policiais e beneficiar o segmento que mais sofre com essa parafernália toda, o favelado, que é estigmatizado.

Lógico que para isso ele vai precisar de um grupo de policiais civis e militares que não usem o tal do guardanapo da cabeça. Não pode. Polícia que gosta de botar guardanapo na cabeça não serve para recuperar.


BBC Brasil - O senhor está falando do ex-governador Sérgio Cabral e do famoso jantar em Paris, com a farra dos guardanapos na cabeça.

Hélio Luz - É isso. (...)

Retirar a turma do guardanapo na cabeça é difícil, mas o general pode isolá-los, neutralizá-los. Não precisam ser todos. Na hora que neutraliza uma parte considerável, o restante se enquadra.

A partir disso, ele tem condições de reduzir as ações de vigilância ostensiva que essas GLOs (operações militares para Garantia de Lei e da Ordem) fazem, com tropas nas favelas estigmatizando essas áreas. Como se o problema estivesse dentro das favelas. Não está.

Como ele tem um comando inédito do sistema, ele pode priorizar investigações integradas e coordenadas para prender os agentes externos da insegurança.

Eu tenho muita dificuldade de chamar de bandido. Aqui no Brasil, chamar o pessoal que mora na favela de bandido é de uma incoerência tremenda. O bandido brasileiro usa terno e gravata.

Se ele (o general Braga Netto) quiser aprofundar as investigações, ele vai parar nas mesas de câmbio que operam na avenida Rio Branco (no centro do Rio).

Ninguém pode imaginar que o menino da favela tenha capital o suficiente para bancar os entorpecentes que circulam ali. Quem detém o capital que financia as drogas tem uma mesa que opera câmbio na Rio Branco e um filho que frequenta bons colégios. Se o general chegar lá, aí realmente vai estar combatendo o crime e melhorando as condições de segurança do Rio."

Taí o tipo de cara q eu discordo mas faz sentido.

________

Matéria na íntegra:

O problema do Rio não são os bandidos, são os mocinhos', diz ex-chefe da Polícia Civil

Quase vinte anos após fala incisiva no documentário 'Notícias de Uma Guerra Particular', Hélio Luz diz que intervenção federal deve atacar corrupção policial e reduzir ações ostensivas em favelas, que estigmatizam moradores.




Os  diagnósticos incisivos de Hélio Luz, ex-chefe da Polícia Civil no Rio, ficaram marcados na memória de quem, há quase 20 anos, o assistiu no documentário "Notícias de Uma Guerra Particular", descrevendo uma polícia que foi "criada para ser violenta e corrupta" e teria papel de "garantir uma sociedade injusta.

"Como você mantém os excluídos todos sob controle, ganhando R$ 112 por mês? Com repressão", disse aos diretores João Moreira Salles e Kátia Lund, na época em que chefiava a Polícia Civil fluminense, entre 1995 e 1997, referindo-se ao valor do salário mínimo de então.

Aos 72 anos, Luz está aposentado, afastado da vida pública e vive com a família em Porto Alegre, onde nasceu. Mas continua acompanhando de perto as notícias da guerra particular que não acaba no Rio.

Em entrevista à BBC Brasil, ele faz o esforço constante de deslocar o foco das favelas, que têm sido objeto de operações policiais e militares, e apontar o espelho de volta para as elites, para a classe média e para as forças de segurança.

"Por que cercar a favela, se o crime não está ali? O cerne da questão da insegurança não está ali. Aquilo ali é o resultado", afirma, considerando que os "meninos que estão no tráfico" são produto da desigualdade social.

Luz considera que a intervenção federal pode trazer benefícios se deixar de lado ações ostensivas nas favelas - que equivalem a "enxugar gelo" e estigmatizam os moradores - e trabalhar para recuperar as estruturas policiais, neutralizando a ação de agentes corruptos e fazendo com que os "mocinhos" - integrantes do sistema de segurança - façam jus à designação popular.

"O problema do Rio não são os bandidos. O problema do Rio são os mocinhos. Se ele recuperar o quadro de mocinhos, ele pode dar uma atenção real ao quadro de bandidos", afirma.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
BBC Brasil - Como o senhor se posiciona em relação à intervenção federal?
Hélio Luz - Eu entendo que a intervenção é constitucional. É inédita, mas é constitucional. A discussão está sendo muito reduzida ao oportunismo político de quem detém o poder. Foi uma medida oportunista? Foi, e nisso está longe de ser a primeira.
Mas acho que temos que ter uma discussão mais consequente. Estamos falando do problema de segurança da população do Rio. Há uma questão real e podemos ter uma conversa séria sobre isso.
Não vou falar no interventor, que é um cargo político, e sim no general Braga Netto, que manda no Comando Militar do Leste. O CML é o mais antigo e o mais completo arquivo de informações sobre os integrantes das polícias Civil, Militar e dos bombeiros do Estado do Rio. A troca de informação do Exército com as polícias é constante. A segunda seção das Forças Armadas sabe de tudo.
Outros comandantes do CML tiveram acesso a essas informações, mas não podiam fazer muita coisa. Agora o general tem acesso a essa inteligência e pode agir com base nela. Pode mudar o comando e mexer nas polícias. Isso é inédito.
BBC Brasil - Mas a intervenção tem data para acabar, dia 31 de dezembro. É possível resolver problemas estruturais na área de segurança?
Hélio Luz - Não, para isso, ele precisaria de mais tempo e de uma discussão mais ampla sobre um projeto de segurança. Mas ele pode recuperar a estrutura existente.
O grande problema que temos é quem executa a segurança pública. Os integrantes das polícias Militares e Civil. Se o general recuperar as estruturas internas, os agentes que provocam a insegurança ficarão limitados ao ambiente externo.
O problema do Rio não são os bandidos. O problema do Rio são os mocinhos. Se ele recuperar o quadro de mocinhos, ele pode dar uma atenção real ao quadro de bandidos.
BBC Brasil - O mocinho é o policial?
Hélio Luz - Não só o policial. São os integrantes do sistema de segurança que operam no Estado do Rio. Pode ser bombeiro, agente penitenciário, policial rodoviário. É preciso transformar o mocinho em mocinho.
Crime organizado pressupõe atuação a nível nacional, formação de um cartel e inserção nos poderes da República. O que denominam "bandidos" no Rio, e tenho ojeriza a isso, não é crime organizado. O tráfico no Rio não é cartelizado e disputa permanentemente a área geográfica. Não tem um exército ou integrantes constantes. Tem muitos problemas internos.
O pessoal não percebe que isso é um produto da sociedade. Esses meninos que estão no tráfico são um produto direto nosso, da classe média, dos detentores do poder desse país.
BBC Brasil - São um produto da desigualdade social?
Hélio Luz - São um produto da concentração de renda. E não venha me dizer que a Índia ou outros países com desigualdade não têm esse problema. Aqui é diferente, pô. O nosso nível de concentração de renda é muito alto e resulta nisso.
A favela é produto nosso. Como é que não é produto dos que detêm o poder? Como é que não é produto da classe média? É produto meu. Como é que eu tenho aposentadoria integral e não tenho responsabilidade sobre a favela? Para eu ter meus privilégios, tem que existir favela. Isso é óbvio. O dinheiro público é um só. Se eu abocanho uma maior parte, falta do outro lado. Não há saída para isso.
Ele (o general) tem condição de recuperar as estruturas policiais e beneficiar o segmento que mais sofre com essa parafernália toda, o favelado, que é estigmatizado.
Lógico que para isso ele vai precisar de um grupo de policiais civis e militares que não usem o tal do guardanapo da cabeça. Não pode. Polícia que gosta de botar guardanapo na cabeça não serve para recuperar.
Fonte: Terra 
https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades/o-problema-do-rio-nao-sao-os-bandidos-sao-os-mocinhos-diz-ex-chefe-da-policia-civil,57b3d39ea75465193e39506ab570c5banhijvq5y.html

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Cronologia: segurança pública e reforma da previdência

"Cronologia:
Duas semanas atrás: O governo e empresários percebem que, impopular, a reforma da previdência não irá passar.

Uma semana atrás: Moradores da comunidade Morro dos Macacos, em Vila Isabel, me contam que o boato lá é de que as polícias militar e civil receberam ordem de cima para que liberassem a bandidagem para "tocar o terror na cidade durante o carnaval." Posto o ocorrido no Facebook, achando meio cara de teoria da conspiração. Pezão e Crivella saem do Rio.

Durante o carnaval: De fato a bandidagem "coloca o terror na cidade", não mais violência do que já acontecia e sempre aconteceu nas periferias, mas há mais violência visível. Principalmente em pontos e bairros turísticos cobertos por câmeras. A polícia só chega no último dia de carnaval. A opinião pública, só agora se choca com uma violência que acontece de forma cotidiana a décadas. Formadores de opinião, moradores da Zona Sul, postam em suas colunas de jornal ou redes sociais que "O Rio de Janeiro acabou. Que a situação está insustentável. Que algo agudo precisa ser feito já." Em comum, nenhum deles sabe apontar no mapa onde fica comunidades como a do Morro dos Macacos. Temer observa, sorri, e agradece em silêncio.

Após o carnaval: É anunciada Intervenção Militar no Rio de Janeiro. A mesma que, para fins de segurança, já não deu certo em ações como a do Complexo da Maré, por exemplo. A opinião pública aplaude, aliviada. Não aprendeu a lição da ala "Manifestoches", da Paraíso do Tuiutí. Os poucos que sacaram e que querem ir para a rua protestar já não podem, porque estamos sob intervenção. A esquerda Zona Sul é a primeira a cair no golpe - gasta energia preocupada com o militares (sendo que quem vai sofrer na pele será a diarista que faxina suas casas) e comprando ingresso para o desfile das campeãs no sábado, para postar no instagram e aplaudir a Tuiutí, escola da qual nunca haviam ouvido falar antes mas que consideram desde criancinha. A rotina militar da cidade não muda, posto que é a mesma desde Vargas. Milhares são torturados todos os dias em delegacias da baixada fluminense sem que se grite por eles.

Um mês após o carnaval. O congresso está fechado a emendas constitucionais por conta da intervenção militar no Rio de Janeiro. A reforma da Previdência torna-se definitiva moeda de troca política. A intervenção militar é suspensa. É votada e aprovada, finalmente, a reforma da previdência.

Governo e empresários respiram aliviados.

Agosto de 2018. Agora já não adianta mais nenhum projeto de esquerda ganhar as eleições presidenciais. O projeto conservador garantiu o direito dos patrões pelas próximas décadas.

2019. A violência no Rio de Janeiro volta a níveis "normais" para a opinião pública: continua acontecendo, só que de volta e restrita aos cantos invisíveis das periferias.

Nada muda na comunidade do Morro dos Macacos."

Marcos Vinicius A. De Souza

Professora especialista da UFF fala sobre segurança

Link do vídeo:

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/videos/t/todos-os-videos/v/professora-especialista-em-seguranca-publica-da-uff-fala-sobre-intervencao-federal-no-rio/6510030/

Análise se conjuntura: exército comandando segurança pública

Análise se conjuntura qnto a segurança pública e o advento do exército (governo federal) comandando as polícias civil e militar:

"O caos na segurança pública do RJ não começou hoje. Os responsáveis são da quadrilha do PMDB (governando junto com PT, falo mermo pq não tenho memória curta não) que entregaram o estado pros Eike Batistas e seus amigos gerando essa crise social profunda que o povo tá pagando a conta. Foi com a conivência de Sergio Cabral e Dudu Paes que várias áreas da capital viraram latifúndio de milícia. Sao milhares de pessoas que vivem no fogo cruzado entre o tráfico, milícia e polícia, controladas por todos eles. Pezão foi na mesma linha e Crivella também. E agora vem o vampirão com essa de que o Exército tem que controlar a segurança do Rio? O Exército já esteve na Maré, durante a Copa, as Olimpíadas, pra "acabar" com os roubos de cargas na Brasil. Milhões de reais que só aprofundaram a violência. Mas o que vai quebrar o Brasil é a previdência, os direitos trabalhistas, as bolsas do PIBID, a CEDAE publica, a nomeação dos 900 professores concursados do RJ que a Carmem Lúcia suspendeu ontem. Ah, vá! Eu tô é indignada! Dia 19 eu vou paralisar e vou pra rua me manifestar! Vambora!"

M. Nolte

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Rebelião em presídio do Rio Grande do norte

Rebelião em presídio do Rio Grande do norte: a Rede Globo só fala da briga entre facções. Animais,  não?

Ah. Vale lembrar que não existe teletransporte pra armas daquele tamanho.  E que tb não dá pras visitas botarem debaixo da saia pra entregar SEM OS PRÓPRIOS POLICIAIS do local saberem.

É  óbvio mas precisa ser dito. A falha é  sempre coletiva. Ninguém erra sozinho.

O cenário é de? GUERRA.

Quantos governos lançam mão dessa mesma técnica nas competições econômicas? Religiosas? Políticas?

Se bandido bom é bandido morto, vamos visualizar que tantos advogados e forças armadas não dão conta de cumprir a própria lei, então não podem zelar por ela. Vamos lembrar d Cunha e Cabral e de como jamais a lei mataria quem tem poder econômico mesmo esses, que estão descobertos. Rs

Nos nossos municípios não é diferente.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Abrigar um abandono

Preciosidades que eu achei no meu rascunho de 2013!


" Um monge descabelado me disse no caminho: 'Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha idéia era fazer alguma coisa ao modo de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser de um gato num beco ou de uma criança presa em um cubículo. (...)" (BARROS, Poesia Falada, v.8)



- 1
De onde vem a força dessa passagem de Barros? O que nos comove e também nos amedronta nessas letras? De certo que tememos ser esse que foi abandonado. Mas no contexto em que se visa trabalhar essa passagem, diante dos valores transmitidos pelo Estado e pela mídia, há medos que vão além. Barros não faz como muitos que, ao encontrar o horror, dele se aparta ou estereotipa. Ele se aproxima e olha de novo.

Esse autor tem como característica ver potência nas ruínas porque elas não são um sinal só de algo que acabou. Elas são uma simplicidade muitas vezes interessante e até necessária, fruto de uma história repleta de humanidades possíveis. Abrigar o abandono pode ser uma proposta de trabalho? No contexto em que estamos, se está claro que o abrigo não substitui, mas, antes de tudo, funciona até como alternativa a famílias que existiram, mas não puderam cuidar de seus filhos, como transformar a tarefa de abrigar o abandono em algo potente? Podemos pensar sua função também a partir desta passagem:

“Todo filho é biológico e adotado. A condição para todos existirem é nascer, e após isso, é ser adotado, pois só se tem um filho se você o considera.”

O abrigo, então, não abrigaria O Abandono, mas um tipo possível deste. Estar inserido em uma família não é garantia de acolhimento como os valores morais de nossa sociedade tendem a preconizar de modo conservador.

Como ver nele um mediador necessário e até interessante? Como trabalhar o olhar que é lançado pela sociedade e não ver nessas crianças e jovens só alguém arruinado, mas alguém potente?

- 2

Retomaria no trecho em q coloco o cenário da criança abandonada e abusada como desinteressante:

Pq tanto do q nos comove não nos move? Porque nos movemos pela beleza e doamos dinheiro pro Criança Esperança sem querer saber pra onde vai esse dinheiro e que medidas são essas q estão sendo tomadas (numa espécie de alienação ou de ajuda sem compromisso)? Que funcionamento é esse que prefere evitar a dor e acaba por fazer com que nos furtemos a debates tão importantes como o abuso sexual de crianças? Por que é tão mais fácil não falar disso? Por que não está claro que o silencio é permissivo e leva a repetição? Se temos horror a que isso aconteça, por que isso leva ao nosso afastamento e não ao combate? É fato que temos que nos aproximar do horror para combatê-lo e isso não precisa ser de forma que esteja além das nossas capacidades. Leve sua arte, leve sua habilidade na cozinha, leve seu malabarismo circense, ofereça tempo e trabalho que todas essas formas serão maneiras de tocar no problema a partir do momento que se é capaz de produzir felicidade também.]


- 3

LINK: http://www.fazendohistoria.org.br/downloads/3_imaginar_para_encontrar_a_realidade.pdf

Outro limiar que é ocupado por ele é o de uma medida pública que parece atuar em âmbito privado como apontado na cartilha “3 Imaginar para Encontrar a Realidade”. Apesar de ser uma cartilha as vezes taxativa, apresenta reflexões interessantes como essa: A contradição entre o espaço público e o privado é sempre tema de debates. As conquistas internas em relação ao progresso das crianças, adolescentes e dos jovens implicam negociações nem sempre inteligíveis para os que estão do lado de fora.








quinta-feira, 28 de maio de 2015

Ele salvou 669 crianças durante a 2ª Guerra

Todo mundo q lida com crianças quer ve-las grandes!
Tirando o sensacionalismo, é isso.
Ninguém é herói sozinho!! Sempre tem muita gente q fez parte.
O livro "Janus Korkzac - precursor dos direitos da criança" é lindo nesse sentido, mas o final é diferente.
"Quem salva uma vida salva o mundo inteiro"
Pela felicidade de tudo q existe!
Creche UFF 

Ele salvou 669 crianças durante a 2ª Guerra… e não sabia que elas estavam sentadas ao lado dele.

Por Will
Sir Nicholas Winton tem uma das histórias mais fantásticas que já passaram pelo Awebic.
Ele foi o responsável por organizar uma operação de resgate que salvou 669 crianças de campos de concentração nazista. Elas foram levadas em segurança até a Inglaterra entre os anos de 1938 e 1939.
Depois da 2ª Guerra Mundial o feito de Nicholas permaneceu desconhecido. Foi só em 1988 que sua esposa Grete descobriu um velho livro de 1939 com os nomes e as fotos de todas essas crianças.
A reportagem abaixo conta a história de Sir Nicholas. Destaque para o tempo de 6 minutos e 31 segundos do vídeo, quando ele recebe uma homenagem emocionante em um programa de TV inglês.
Clique no play abaixo para assistir.

http://awebic.com/pessoas/ele-salvou-669-criancas-durante-2a-guerra-e-nao-sabia-que-elas-estavam-sentadas-ao-lado-dele/

Marcha da Maconha em São Paulo

Eu não fumo maconha.




Fomos até a Marcha da Maconha em São Paulo ver quem são esses tais maconheiros de quem tanto falam por aí. E olha,...
Posted by Quebrando o Tabu on Quarta, 27 de maio de 2015

sábado, 17 de janeiro de 2015

Imagens críticas: polícia, salário de professores, Cristp Feliciano

NO EXISTEN PAÍSES POBRES ...
Existen países "saqueados", "explotados", esclavizados"...
pero "no pobres".

Imagen Original de: http://www.polyp.org.uk/

Adaptada para ÚneteAlPlaneta por: GorkyPizarro.

Fonte: Unete AlPlaneta / Join The Planet
https://www.facebook.com/UneteAlPlaneta.JoinThePlanet/photos/a.203934016298144.52074.145288895495990/786702868021253/?type=1&theater






- Crítica a polícia






- Protesto"
Salário de professores no Brasil e na Suécia e de senadores!




Fonte: Ricardo Amorim
https://www.facebook.com/ricardo.amorim.ricam/photos/a.364082990337857.86268.358850087527814/616718011741019/?type=1&theater

(Su: Esse cara que faz o Conexão Manhattan?)



- Deus do Feliciano



Fonte:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=819247934800714&set=a.419270371465141.94406.100001465467046&type=1&theater

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Mc Marechal - "portar um Nike é vencer"?

Obs.: Esse site parece legal!
Ele mostra a interpretação de partes da letra da música. Tem artistas que falam sobre as letras. Mas que a gente continua gerando nossas interpretações! :)

"Porque eles querem nos forçar a amar o que nos não podemos ter
E fazer tu se apaixonar pelo o que não é você

Até o ponto de acreditar que portar um Nike é vencer?
 Chega o momento em que
Tu encara o espelho e não consegue mais se ver
Cadê tua alma? Cadê tua fé, guerreiro?
Cadê teus princípios, Teu sentimento verdadeiro
Cadê a mulher, cadê o amor, cadê? Qual foi? Cadê os parcero?
Vagabundo ta topando tudo por dinheiro

Na ilusão de ser feliz, Neguinho aceita os que eles disserem
É o que o diabo quis E o anjo protetor já não interfere"

(Vamos Voltar a Realidade - Mc Marechal)

Fonte:  Genius
http://rap.genius.com/Mc-marechal-vamos-voltar-a-realidade-lyrics#note-3230884 

Redução da maioridade penal

Tem um ponto que eu não consigo aceitar nessa forma de colocar o debate: a criminalidade ser sempre uma falta de oportunidade devido a pobreza e falta de acesso a estudo e a uma condição social melhor. Como se a pobreza "justificasse" o "delito". Tem q ter muita calma nessa hora!
Vejo sim muitas pessoas em áreas abandonadas sendo abordadas somente pelo tráfico e pela igreja. Invisíveis aos olhos da mídia e da sociedade. A milícia aqui tá comendo tudo nesta cidade! E vejo que, por esse ponto de vista, por exemplo, a reprodução da hierarquia opressora do Estado no poder paralelo não é nem falada! Só se fala de quem foi aliciado e se desculpa através da questão social, mas não do aliciador sendo que, pra mim, essas coisas andam juntas!

Tem gente que realmente "não precisa" e tb se mete nessa! Claro q rico também rouba, veja a fama dos políticos. O dano que causam é mt maior!
Não fica colocado nesse debate a hipocrisia da qual a sociedade se alimenta como em relação ao comércio ilegal, por exemplo. Em relação ao tráfico de substância ilícita, onde se meu amigo vende ele é bacaninha; e quando o pobre vende, é traficante; ou o camelô, que faz com q muita gente se declare como trabalhador autônomo e, se não fosse isso, o índice de desemprego, q o pessoal fala aí q é por causa de governo tal ou tal, quem segura as pontas mermo é o informal, estaria mt maior.

Vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=ykEpQxGrpho

domingo, 7 de setembro de 2014

O Rio de Janeiro começou no morro!

A cidade do Rio começou no morro.

Vídeo: "Um rolé pela História das Favelas em 8 músicas Parte II Análise da música 1 Batuque na cozinha"


A cidade do Rio no século XVI eram 4 pontinhos de gente, cada um em um morro: Morro da Conceição (onde tinha primeiro uma fortaleza militar e depois uma prisão eclesiástica), Morro de São Bento (tinha mosteiro, por isso sobreviveu) e mais dois morros eliminados da paisagem. Não tinha militar, não tinha religioso, só tinha pobre. Foram tirados da paisagem do Rio por isso. Um deles é O Morro do Castelo, onde o Rio foi fundado. Esse foi arrasado pra virar aterro (já era habitado pelos pobres, mal visto, então, já se enquadrava no que hoje chamam favela). Já em 1871 as pessoas tinham medo de subir lá. Porque antes da favela existia o cortiço.

Favela é o nome de uma árvore. (...) Que é perfeita pra simbolizar a favela (...).
A favela ganhou esse nome com origem em um dos maiores massacres da história do Brasil. (...) Foram 4 expedições até que 5 mil soldados ficaram diante de 4 combatentes que foram devidamente eliminados.

O nome "favela" surgiu daí! Era o morro onde os soldados acampavam diante do Arraial de Canudos. Foi de lá que eles desfecharam a ofensiva fatal com as armas mais potentes da época que eram os canhões *. Esses soldados voltaram para a capital, que era o Rio de Janeiro e, pra variar, o governo deu o cano neles. Disse que não podia pagar no momento. E eles disseram "mas como? A gente não tem nem onde ficar. Vcs vão pagar um hotel?". Responderam: "Então! Não. Sobe esse morro aí. Esse tal de Morro da Providência e bota as barracas de vocês aí em cima e fica esperando até a gente pagar". Os soldados foram lá pra cima e montaram as barracas. De barraca virou barraco. O nome Providência não é porque foi providência divina, mas dos humanos. E outras favelas surgiram assim. O Morro de Mangueira também. (...)

Engraçado, né? Depois o Estado fala "quero retirar as favelas", mas foi o Estado que colocou lá!

Ficou tão famoso e temido que os outros morros adotaram a grife "favela". Antes era só "morro". É de onde vem o samba, por exemplo.

As favelas herdaram o medo que já havia do cortiço. Pode pegar a obra de Aluízio Azevedo, "O Cortiço", que fala do ódio entre a polícia e os moradores do cortiço. Polícia entra metendo o pé no portão. Só a polícia ia lá. Light não ia, nem gás, nem urbanização. As pessoas botavam os nomes que quisessem nas ruas. Até a década de 80 não constava nos mapas da cidade. E foi a solução para habitação. Apenas morava lá os trabalhadores, que faziam a cidade se movimentar. Eles davam um jeito de sobreviver, mal pagos que eram.
Favela era o lugar de gente suja, violenta, promíscuo, festa o tempo todo, cachaça. (...) Um conde dizia que em 90 anos íamos acabar. (...)

Falar de favela é falar de questão racial desde o início. Pode falar morador de comunidade, favela, comunidade carente. Na prática, falar em favela é pensar em preto e pobre.

(...) Logo a primeira loura que meu primo encontrou não podia ser "favelada". Aliás, esse é um termo que eu odeio. Porque é adjetivação. Porque ele é favelado, então é asfaltado? Já ouviram falar isso? A gente falar negão e não brancão. Estereótipo que diz que o negro é marcado pelo excesso de força, que é um animal, que ele não tem a plena racionalidade e nem mesmo religião. Porque a religião dele é fetichista e irracional. Marcada só pela ideia de mágica. Ele não pode entender a ideia de Deus.

Primeira Música: Batuque na Cozinha (de João da Baiana)
(...)
A Primeira República tinha ódio do candomblé, da capoeira, do samba. Pandeiro rasgado pela polícia. João não era bobo. Faz música tinhosa que parece um jongo em que vc fala uma coisa querendo dizer outra. Antes do sambista ser malandro, o jongueiro já era malandro no tempo da escravidão.
Batuque é um termo do século XVIII. Uma cerimonia d candomblé com samba. Gregório de Mattos , furioso, fala q os brancos já iam no batuque no século XVIII.  O mesmo que mandava proibir o batuque.

(...) A palavra samba não aparece.
Cozinha era lugar de encontro numa casa de cômodos, casas antigas. Onde antes em cada quarto morava uma família ou homem solteiro. A música é ele conversando com o comissário.
Casa de cômodo era o lugar do medo que o branco tinha do negro. Porque os brancos dormiram mais de anos pensando que se os negros se rebelassem, eles estavam fodidos!

(...) A cozinha é sinônimo de negro. mais quente, desagradável mas também da brincadeira, fofoca, recreação. Tem muita gente. E apelação (confusão, pancadaria, discussão).
(...) É casa de cômodo e tem sinhá? Gingando por um lado com república e pro outro, escravidão. República está tratando a gente como o senhor de escravo tratava antes.
Sinha é república. República não quer batuque.

Não entendo de justiça.
Tem que ver pra saber o que é justiça e não vê.

Teria que começar com a constituição pra depois ir para outras coisas. A gente não começa com constituição e sim com código penal. Porque primeiro tem que prender os animais. Lei da vadiagem: porque o negro só trabalharia se fosse obrigado. Antes era chibata. Pós abolição, na república, se obrigava o homem livre a ficar 18 anos na marinha e era chicoteado como se fosse escravo. Daí a Revolta da Chibata!

O branco quer tudo. Vai na cozinha, quer a cebola, a mulata, a branquinha. O bicho vai pegar, que é esse preto, que vai pegar. Onde é que vai pegar?






segunda-feira, 16 de junho de 2014

Professor de inglês sob tortura pela PM

Parte infeliz da nossa história!!!

 Pra quem quiser ver o vídeo absurdo: https://www.facebook.com/photo.php?v=680013502064823 

A inversão de valores em prol da demo-cracia: práticas de tortura liberadas no espaço público e a pessoa que se torna vitima mais uma vez ao ser expulsa de seus empregos!!! Qual a justificativa? "Não aceitamos trabalhadores q protestam"? Sabemos q não aceitam, mas vão ter q inventar uma desculpa melhor do q a verdade....



"O professor de inglês Rafael Marques Lusvarghi, 29, estava parado sozinho em frente à tropa ao lado do metrô Carrão quando levou dois tiros de borracha no peito. Em seguida, ele foi imobilizado pelo próprio comandante da operação e ao menos mais cinco PMs. Mesmo algemado e imobilizado, Lusvarghi foi atingido por um jato de spray de pimenta nos olhos.

Por causa da repercussão das imagens, ele perdeu nesta sexta seus dois empregos - em uma escola e em uma multinacional do setor de tecnologia."

Fonte: Anonymous Rio
https://www.facebook.com/anonymousrio/photos/a.263574540359568.104847.231139103603112/744040438979640/?type=1&theater

O primeiro dia da Copa em SP por Advogados Ativistas

Advogados Ativistas e Observadores Legais registram o primeiro dia da ‘Copa do Caos’

Demonstration report – FIFA 2014 World Cup Opening Day, São Paulo
Material can be reproduced if mentioned source
Colectives: Advogados Ativistas e Observadores Legais (Activists Lawyers and Legal Observers)
obsPassado um ano quase exato das manifestações de junho de 2013, mais uma vez, mas com qualidade inédita, a sociedade civil organizada se articulou no combate à repressão policial. Tal esforço viu-se representado por advogados, observadores legais, socorristas e todos aqueles atores ligados às questões da legitimidade do direito de reunião e expressão, bem como dos demais pilares que devem sustentar o Estado Democrático de Direito. Imbuído desse mesmo espírito, e no intuito de apoiar o coletivo Advogados Ativistas (formado por advogados atuantes nas ruas, em defesa dos manifestantes), surge o grupo Observadores Legais – especificamente voltado para observar, relatar e produzir dados sobre os agentes de segurança envolvidos nas manifestações por ocasião da Copa do Mundo no Brasil e mesmo em outras ocasiões, após o torneio. A exemplo do que já acontece no mundo todo, esses dados precisam ser levantados com a finalidade de serem ventilados como fontes seguras de dados qualitativos e quantitativos imprescindíveis como fonte ou referência segura para: 1) imprensa nacional e internacional; 2) órgãos nacionais e internacionais de direitos humanos e 3) formação de provas para instrumentação processual na Justiça. É sob essa ótica (das ruas) que abordaremos, a seguir, o primeiro dia – de abertura – da Copa do Mundo 2014.
Observador legal 3 onibus
                O dia iniciou-se em São Paulo com o sítio à cidade, exercido pelas forças de segurança pública empregadas pela Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal e Exército, entre outros agentes de segurança. Das 9h30 até o fim do dia osquarenta integrantes dos Observadores Legais observaram, relataram e compilaram os seguintes dados sobre a atuação policial:
· Segundo atendimento realizados pelo grupo de socorristas, GAPP, durante o dia foram realizados ao menos 37 socorros a manifestantes, decorrentes de diversos tipos de lesões, como ferimentos por estilhaços de bombas, balas de borracha, asfixia por gás lacrimogênio e mecânica decorrentes de esganadura, bem como de reiterados golpes de cacetetes.
Foram realizadas ao menos 47 detenções, sendo que diversas prisões sequer eram informadas aos advogados, ou permitido o acompanhamento visual da atuação policial.
·  bloqueio de vias e interdição de ao menos parte do transporte público, com a finalidade de comprometer a mobilidade dos manifestantes e, desta forma, sua tendência de deslocamento em direção ao perímetro de exclusão imposto pela FIFA – organizador da Copa;
·  revistas pessoais realizadas por policiais em transeuntes, sem qualquer fundamentação legal;
· policiais trajados com farda sem tarjeta de identificação funcional ou identificação alfanumérica de 10 dígitos, ou ainda de modo a não evidenciar qualquer tipo de identificação;
Observador legal 4 loco
· policiais portando armas de fogo (inclusive de grosso calibre comometralhadoras e escopetas 12mm) durante contenção e operações antidistúrbio;
· civis atingidos por estilhaços de bombas, balas de borracha, golpes de cacetete e socos;
· intimidação e constrangimento ilegal contra manifestantes por meio de gritos e gestos ameaçadores;
· impedimento de atuação dos advogados durante o acompanhamento de revistas pessoais, bem como no registro de material probatório, quando das agressões ou abusos de autoridade;
· impedimento, com violência deliberada, de atuação dos jornalistas no exercício da profissão, tendo sido tomados como alvo por reiteradas vezes pelas forças de segurança;
· impedimento da atuação dos Observadores Legais na coleta de material estatístico e probatório durante a manifestação, por meiosostensivamente impeditivos;
·  seguranças do serviço privado do metrô realizando revistas pessoais nos usuários, de modo totalmente ilegal;
· prisões ilegais infundadas, justificadas como sendo para averiguação – instrumento, aliás, inexistente no ordenamento jurídico brasileiro. No ano em que se completa o cinquentenário da ditadura militar no Brasil (1964-1985), é no mínimo irônica a utilização de um expediente tão característico período ditatorial.
· tiros de armamento balístico menos letal e elastômero (bala de borracha), feitos acima da linha da cintura – como indicam os orifícios feitos a bala nos para-brisas de veículos, a cerca de 1,5m do solo.
·  veículos atingidos no seu interior por bombas de gás-lacrimogênio.
· policiais militares e supostos policiais civis (não fardados), em duas ocorrências distintas, com agressão e rapto de manifestantes, introduzindo-os a força em veículos descaracterizados, não oficiais. Sem direito de registro do nome do condutor, evadindo-se os veículos para local desconhecido, perante a população que registrava as ocorrências em vídeo e foto, em plena luz do dia.
· depois de registrar cenas de espancamentos perpetrados por policiais militares, um manifestante, por eles perseguido, refugiou-se em residência próxima àquela ocorrência, obtendo guarida dos proprietários da casa. Somente depois de aproximadamente uma hora de refúgio– com a Polícia Militar todo o tempo à frente do imóvel – foi possível a retirada do manifestante perseguido, em segurança, na companhia de representantes dos Advogados Ativistas e Observadores Legais;
Observador legal 2 gordinho·  utilização de bombas e armas de fogo em um posto de gasolina;
·  utilização de bombas com data de vencimento raspadas;
·  acusações de crimes infundadas aos manifestantes, com diversas tentativas de flagrantes forjados;
·  agressão deliberada de policiais militares a uma criança de nove anos de idade e seu cão, sem motivação;
·  agressão reiterada a equipes de socorristas que insistiam na prestação do socorro às vítimas dos próprios agentes de segurança;
·  tentativa, por parte dos policiais militares, de esvaziamento de uma estação do metrô, obrigando os usuários a saírem rapidamente da estação sob tiros e golpes de cacetete.
                Por fim, uma última abordagem nos parece pertinente quanto aos agravos sofridos pelos diversos indivíduos envolvidos na resistência às forças policiais:

ADVOGADOS

-   advogada atingida por bomba de gás lacrimogênio, antes mesmo do início da manifestação, lançada com o intuito de dispersar um grupo reduzido, de aproximadamente 20 pessoas;
-   advogado no exercício da profissão, tolhido brutalmente, prensado contra viatura policial, jogado ao chão e, desta forma, levado ao estado de semiconsciência;
-   advogado, no exercício da profissão, alvejado por bomba de gás lacrimogênio, a qual terminou por prender-se entre sua mochila e o próprio corpo, resultando em asfixia e queimadura. O mesmo advogado ainda foi atingido na face por soco desferido por policial militar em outra ocasião;
-   atendendo a solicitação de uma equipe de observadores legais que estavam sofrendo a apreensão dos equipamentos, relatórios e câmeras, um advogado, no exercício da profissão, teve o seu documento apreendido para verificação de antecedentes criminais, colocando-o em situação de averiguado.

OBSERVADORES LEGAIS

  -    tentativa de apreensão, por parte da Policia Militar, de conteúdo apurado ao longo do dia, em  relatórios e câmeras, pelos Observadores Legais;
-   mesmo que comunicados previamente em suas intenções às autoridades policiais e governamentais, os Observadores Legais sofreram diversas revistas pessoais sem fundada suspeita – como é exigido por lei, denotando perseguição a si enquanto registravam conduta policial;
-   um Observador Legal foi ameaçado de morte por policial militar sem identificação;
-   a quase totalidade dos Observadores Legais foi intimidada por policiais militares no exercício da função;
-   uma observadora legal, com atuação internacional em Direitos Humanos, teve a perna atingida por diversos estilhaços de bomba detonada a poucos centímetros do seu corpo e dos demais observadores do grupo;
-   um observador legal foi truculentamente impedido por diversos policiais de realizar acompanhamento de abordagem policial, tendo a roupa rasgada e o pescoço ferido.

SOCORRISTAS

-   impedimento da atuação dos socorristas, importando na negação absoluta ao socorro e ferindo, dessa forma, todas as recomendações da OMS no que diz respeito à humanização em saúde, particularmente no que respeita o atendimento pré-hospitalar;
-   agressão reiterada a equipes de socorristas que insistiam na prestação do socorro às vítimas dos agentes de segurança;
-   alvejadas por balas de borracha (à cerca de dez metros e acima da linha da cintura), socorristas foram impedidas de prestar socorro a um profissional da imprensa atingido por estilhaço de artefato do arsenal da Polícia Militar.
-   socorristas sofreram três revistas infundadas pela Polícia Militar no trajeto de dois quarteirões.

IMPRENSA

Jornalistas acabaram por ver-se tão acuados quanto os demais atores da manifestação, na medida em que estes os buscavam como um possível “porto seguro”, independentemente do tipo ou nacionalidade dos profissionais envolvidos. Por exemplo:
  –  CNN
-   Associated Press
-   TV Aasahi
-   NPR
-   FA Press
-   Sigma Press
-   SBT

Fonte: Advogados Ativistas
http://advogadosativistas.com/advogados-ativistas-e-observadores-legais-registram-o-primeiro-dia-da-copa-do-caos/