sábado, 23 de setembro de 2017

Rocinha e a vontade geral

"Quer saber pq imposto não é roubo? Liga a televisão agora.

Nesse momento estou em casa. Não consegui me deslocar para o trabalho em função da situação do Rio de Janeiro. Minha televisão está ligada e a todo o momento aparecem blindados, helicópteros e homens armados. A televisão informa que está acontecendo um cerco à favela da Rocinha, maior do Brasil. É provável que aconteça um banho de sangue nas próximas horas. Boa parte da população aplaude e pede intervenção militar. Como chegamos a essa situação limite? Claro que o problema é complexo e existem centenas de explicações igualmente válidas. Mas eu queria pensar um pouco sobre a natureza dos regimes democráticos.

No longínquo século XVIII, os filósofos iluministas definiam a democracia como o sistema de governo em que o cidadão é ao mesmo tempo súdito e soberano. Ele é soberano porque, ao ser ouvido, participa dos destinos coletivos. Ele é parte naquilo que Rousseau chamou de Vontade geral. Vontade geral não deve ser entendida como a soma das vontades particulares, pois ela deve necessariamente guiar-se pelo interesse comum. É dessa intricada equação entre a soma das vontades particulares e o interesse comum que nasce a Vontade geral.

Portanto, ao contrário do que pensam os liberais, na política a soma das partes não forma o todo. A soma das vontades individuais é apenas a expressão de interesses conflitantes, um jogo de forças. No fim, prevalece quem tem mais poder. É pura e simples dominação.

Foucault, invertendo a famosa frase de Clausewitz, disse que a política é a guerra por outros meios. Eu diria não exatamente a política, mas a democracia que é a guerra por outros meios. Pois, como lembrou Marilena Chauí, o sistema democrático é o único que aceita os conflitos como legítimos e, desse modo, os mantém dentro dos limites institucionais.

Porém, é preciso estar atento. A Vontade geral choca-se, a todo o momento, com as vontades particulares e corre-se o risco que os interesses acabem por prevalecer.

Em 2011, o mesmo traficante que agora leva o terror à favela da Rocinha, Nem, disse as seguintes palavras numa entrevista: “UPP não adianta se for só ocupação policial. Tem de botar ginásios de esporte, escolas, dar oportunidade. Como pode Cuba ter mais medalhas que a gente em Olimpíada? Se um filho de pobre fizesse prova do Enem com a mesma chance de um filho de rico, ele não ia para o tráfico. Ia para a faculdade”. Se um pobre fizesse vestibular com condições iguais a um rico, ele não iria para o tráfico e eu não estaria em casa, sem poder sair, nesse momento. A educação pública de qualidade para todos, portanto, pode ser entendida como a emanação da Vontade geral. Ela assegura o bem e a tranquilidade comum.

A ideia da UPP, porém, era transformar o os moradores das comunidades carente em súditos, sem lhes dar a soberania. Era levar ordem, sem democracia. Era acabar com os conflitos pela força. Por isso estava fadado ao fracasso. Como numa panela de pressão, no primeiro furo, explodiria.

Nessa mesma entrevista, o traficante fez outra afirmação desconcertante: “Meu ídolo é o Lula. Adoro o Lula. Ele foi quem combateu o crime com mais sucesso. Por causa do PAC da Rocinha. Cinquenta dos meus homens saíram do tráfico para trabalhar nas obras. Sabe quantos voltaram para o crime? Nenhum. Porque viram que tinham trabalho e futuro na construção civil.”

Independente da avaliação que cada um de nós tenha do ex-presidente, há nessa frase algumas revelações importantes. Nem, o traficante, disse que o PAC tirou de modo definitivo 50 homens do crime. O investimento público em infraestrutura é outro exemplo prático da Vontade geral. Um programa de obras públicas, agindo numa comunidade carente, gerando empregos e ajudando na construção da paz. Emprego, renda, paz e crescimento econômico.

Essa é exatamente a lógica dos impostos. Meu interesse particular diz que é melhor eu gastar meu dinheiro comigo, com prazeres momentâneos e individuais. Mas, como nos ensinou Rousseau, a soma das partes não forma o todo. E o indivíduo, como parte desse todo, é afetado por essa dinâmica corrosiva dos conflitos egoístas. Os impostos, ao serem aplicados em programas como o PAC, ou em educação, serviriam à Vontade geral. São elementos básicos da democracia.

Claro que essa separação não é tão nítida e muitas vezes o dinheiro público é vertido para outros fins. Mas o golpe que sofremos foi arquitetado por pequenos grupos que, em nome de uma moralidade difusa, colocaram o poder a serviço de poucos.

O que os incomodava era a frágil democracia que havíamos construído nas ultimas décadas. Com o golpe votou-se uma PEC que limita os gastos primários. Programas como o PAC agora são inviáveis. A política cortou os poucos laços que mantinha com a soberania popular. Nosso presidente, o mais impopular da história, aceita qualquer demanda, qualquer pressão, para se manter no cargo. Nossa democracia agoniza num jogo de forças entre vontades particulares, enquanto nosso Estado se desintegra sem direção.

Se a democracia é a guerra por outros meios, sem democracia, a guerra emerge pelos meios tradicionais."

Por Eduardo Migowski

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Como agir se: policial te impedir de filmá-lo

O QUE FAZER?

1) Se um policial te impedir de filmar uma abordagem, informe-o que não há lei que te proíba de filmar, e por isso, você não é obrigado a obedecer essa ordem. Impedir alguém de filmar abordagens policiais é crime de constrangimento ilegal (Art. 146 do Código Penal).

2) Se um policial te conduzir à força para a delegacia para testemunhar só porque você filmou a abordagem, chegando na delegacia registre uma ocorrência de abuso de autoridade contra esse policial (Art. 3º, alínea "a" da Lei 4898/65). Sem intimação por escrito, você só precisa testemunhar se quiser.

Se encontrar dificuldades de fazer o registro de ocorrência na delegacia contra os policiais, anote o nome dos policiais e busque ajuda de um advogado, ou da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro na Rua México 11, sala 1501 - Centro do Rio de Janeiro.

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PS. A polícia também não pode mexer no seu celular sem autorização por escrito de um juiz. Se ele fizer isso, estará violando seu sigilo de correspondência e comunicações telefônicas, assegurado na Constituição da República.

PS.2 Segurança em primeiro lugar! Avalie sempre a situação e se houver risco em argumentar com o policial, não discuta. Depois da situação, procure apoio jurídico para ver medidas cabíveis.

PS.3 Se o policial pedir que você se identifique, você é obrigado a fornecer dados corretos sobre sua identificação. Ele poderá levar essas informações para a delegacia, onde você pode ser arrolado como testemunha e posteriormente poderá ser intimado como testemunha, por escrito, para ajudar a elucidar o caso.

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Se você tiver um vídeo de violência de Estado, como por exemplo policiais intimidando cidadãos que filmam uma abordagem policial, denuncie enviando o vídeo para DefeZap pelo WhatsApp (21) 99670-1400. Sigilo garantido!

"Cura gay"

Cura Gay


- Declarações

1 -
"Psis e a cura gay

Psis nao se deixem levar. Essa polêmica nao é de agora e o diagnóstico/ se era doente ou não nunca foi o ponto cabal a conduzir o atendimento clínico. Sempre foi a singularidade de cada pessoa o nosso alvo nos atendimentos que aconteciam ao acolhermos elas. O diagnóstico era uma guia pra reunir alguns sintomas e talvez fazer avançar mais rapido em alguns aspectos da abordagem. Partir de questoes q servem como analisadoras como:
O que causa sofrimento?
Como começou? Quando?
É problema pra quem?
Por que?
Etc.

A partir daí sempre ter o compromisso etico de zelar pela autonomia dos sujeitos sem dizer a eles o q devem ou nao fazer,  ter sigilo, intervir sem pre julgamento moralizante, mas sim partindo da análise dos efeitos das praticas q a pessoa expõe a nós .

 Não somos conselheiros, não temos a mesma ação do amigos, não somos pai e nem mãe,  não somos parceiros românticos. E nao somos médicos também."


2 -
"Judiciário x psicologia
Quem vence?
Ótimo ver que estão em embate!
Acaba virando um problema enorme esse posiconamento todo na net. Queria mesmo é que todos q quisessem a cura gay fossem atendidos por quem cuida do sofrimento e não do diagnóstico de uma cultura. Infelizmente o judiciário não sabe como nada funciona e quer julgar tudo. Não está a serviço das pessoas mas é baseada em uma profissão (a de advogado) que pode mentir e q favorece a politicagem . O judiciário foi feito pra dizer aos mais fracos o q podem e o q nao podem fazer. A psicologia deve diariamente sair desse lugar. Cuidar.

Quem cura é a vida. Em último caso, o médico. A psicologia deve cuidar ... e até reformular a demanda se necessário.


- Debate
"Posso falar da prática clinica q eu acredito,  nesse caso.

Psicologia não deveria reorientar ninguém.

Aliás a demanda q um psi vê pode, inclusive, ser diferente da demanda que a pessoa traz.

A responsabilidade pelas escolhas é sempre do sujeito. O lugar a ser ocupado é o de trabalhar conflitos d qualquer ordem mas q a pessoa deve ter a decisão sobre eles. A aposta etica da psicologia é se propor a um lugar d sigilo onde a pessoa poderia falar qualquer coisa e traçar novas estratégias pra sua vida a partir da possibilidade d ver novos caminhos durante esse trabalho. Isso seria o q a gente chamaria d abertura d sentido: ampliação e diversificação do repertório d uma pessoa inserida em uma sociedade e em um determinado momento histórico. Nesse sentido cabe o q foi dito acima: ha muotos problemas fruto d conflito com a sociedade.
*
"Mas a menina q escreveu entendeu q reorientar poderia ser uma demanda da pessoa e q o psi poderia atender a essa demanda.

Então eu posso entender q ela melhorou a questão porque colocou do ponto d vista do tal do sujeito.

Mas , d modo geral, quando se fala do ponto d vista do profissional q vai reorientar alguém (e nao do sujeito q demanda isso) no sentido da sexualidade,  é quase impossivel não entender isso d forma corretiva, entende?

Nao é o mesmo sentido q reorientar uma pessoa q está em surto (caberia aos profissionajs da saude mental), por exemplo, ou q está perdida na rua (situacao nada a ver com psi tb).
*
"Sem querer me alongar demais (rs) eu poderia dizer q nesse caso e levando em conta o nosso período histórico,  essa demanda pode ser reformulada. Pro bem do profissional e do sujeito atendido.

Da seguinte forma: quando vc decompõe essa questão e chega no sofrimento da pessoa e q conflitos pessoais e sociais ela traz com aquilo, vc pode contribuir com a saude mental daquela pessoa e ela decidir como encarar a sexualidade dela. Por isso digo q essa situação não é uma novidade. Mas o debate atual sobre curar ou nao gays tem influência a nivel social, evidentemente, sobre essas pesslas.

Mas Não é o psi q dará o veredicto. Ou n deveria.

Mas é preciso entender q isso é a minha postura etica e q esses profissionais n sao neutros."


domingo, 17 de setembro de 2017

Este site exibe filmes do cinema soviético e russo (legendado)

Este site exibe filmes do cinema soviético e russo, com legenda 

Juliana Domingos de Lima 16 Set 2017 (atualizado 16/Set 08h52)


FOTO: REPRODUÇÃO FRAME DE 'FRANCOFONIA' (2015), DE ALEKSANDR SOKUROV, QUE PODE SER VISTO NO SITE   

Um serviço de streaming gratuito inteiramente dedicado ao cinema russo, das produções feitas na União Soviética às contemporâneas. Todas com legendas disponíveis em inglês, algumas até legendadas em português. É o que oferece o site Soviet Movies Online. É possível navegar por gêneros – comédia, ficção científica, animação – que mostram a diversidade dessa cinematografia, lembrada mais frequentemente pelos clássicos da produção soviéticos da década de 1920: “O Encouraçado Potemkin” (1925), de Serguei Eisenstein, e “Um Homem com uma Câmera” (1929), de Dziga Vertov. Na categoria “todos os filmes”, é possível ainda triá-los pelos incluídos mais recentemente, por sua classificação no Imdb, o Internet Movie Database, pelo número de vezes que foram vistos ou pela língua em que há legendas disponíveis. No topo da página, as opções “free demo” e “get pass” sugerem que é preciso pagar para usufruir do serviço. Mas, na verdade, paga apenas quem quer assistir sem publicidade e fazer download. Todos estão abertos para ser vistos on-line. Contexto das produções A oferta abundante de filmes sobre os quais a maioria das pessoas ouviu falar pouco ou nada pode desanimar cinéfilos a desbravar o acervo do site. A página do Soviet Movies Online no Facebook, porém, dá dicas,  informações e curiosidades regulares sobre as produções russas. Um post recomenda, por exemplo, a versão original de “Nebo zovyot”, filme de ficção científica de 1959, dirigido por Mikhail Karyukov e Aleksandr Kozyr, que foi adaptado para o público americano pelo diretor Francis Ford Coppola – na época, ainda um estudante de cinema nos seus 20 e poucos anos. Essa nova versão, reeditada por Coppola e Roger Corman, foi “ocidentalizada”: dublada em inglês, omitiu cenas do conflito entre EUA e URSS, presentes no original, que tratava da Corrida Espacial, e mudou a nacionalidade de personagens. Foi lançado em 1962 nos EUA, com o título de “Battle Beyond the Sun” (Batalha Além do Sol, em tradução livre). FOTO: REPRODUÇÃO FRAME DE 'UM HOMEM COM UMA CÂMERA' (1929)   Há ainda filmes do Construtivismo Russo, movimento estético e político dos anos 1920 preocupado com a construção de artefatos que servissem aos princípios revolucionários em vigor, fosse nas artes gráficas, no cinema ou em outros campos. “Um Homem com uma Câmera”, destaque do período, está disponível no site. Não somente filmes soviéticos alimentam o Soviet Movies Online – a experiência comunista na Rússia foi de 1917 a 1991. Há um grande número de produções contemporâneas disponíveis. Boa parte da filmografia do diretor Aleksandr Sokurov, um dos nomes mais conhecidos do cinema russo contemporâneo, pode ser vista no site. Alguns, como seu mais recente “Francofonia” (2015) contam inclusive com legendas em português. 



https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/09/16/Este-site-exibe-filmes-do-cinema-sovi%C3%A9tico-e-russo-com-legenda

domingo, 10 de setembro de 2017

Amar e ser amada profundamente

"Ser profundamente amado por alguém lhe dá força, enquanto amar alguém profundamente lhe dá coragem." - Lao Tzu

Eduardo Galeano 1940-2015 e alguns fragmentos

Eduardo Galeano
1940-2015

Galeano 3“Muita gente pequena, em pequenos lugares, fazendo coisas pequenas podem transformar o mundo.”
“Em 1492, os nativos descobriram que eram índios. Descobriram que viviam num lugar chamado América. Descobriram que estavam nus, que existia o pecado. Descobriram que deviam obediência a um rei e uma rainha de outro mundo, e a um deus de outro céu. E que esse deus havia inventado a culpa e o vestido, e que mandou queimar vivo quem adorasse o sol, a luna, a terra e a chuva que a molha.”
“Os países que dão as ordens no mundo, através dos organismos que criaram para dar as ordens no mundo, ditam as ordens ao mundo mas não as seguem. Sim, porque eles são sádicos, mas não masoquistas.”
Galeano 2
“As guerras mentem. Nenhuma tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar. As sempre invocam motivos nobres. Matam em nome da paz, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia, e para que não reste dúvidas, se nenhuma dessas mentiras não for suficiente, aparecem os meios de comunicação dispostos a inventar novos inimigos imaginários, para justificar a conversão do mundo em um grande manicômio, e imenso matadouro.”
“Os cientistas dizem que estamos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que estamos feitos de histórias.”
“O futebol corre o perigo de se tornar um negócio tão rentável quando o das drogas e das armas. O que vai acabar com o miserável torcedor que vive da sua paixão, que dorme na porta do clube, ou o mendigo do bom futebol, que anda de estádio em estádio, com seu chapéu nas mãos, pedindo “uma jogadinha brilhante pelo amor de Deus.”
“A liberdade do dinheiro é inimiga da liberdade das pessoas.”
Galeano 1
Reunimos acima algumas das facetas de Eduardo Galeano em sete frases suas. A do uruguaio que sonhou com a grande transformação em pequenas proporções, a do historiador da América Latina e suas veias abertas, a do questionador da ordem mundial, a do jornalista que denunciava o saqueamento e a matança dos países pobres, a do mais sensível contador de histórias, a do escritor amante do bom futebol (torcedor do Nacional, para os que tinham alguma dúvida) e a do defensor, através da poesia, da liberdade que interessa a todos, e não a alguns poucos.
Faltou a do autor que soube, como poucos, mesclar a realidade e a ficção*, em suas deliciosas narrativas. Mas para isso, convidamos a que busquem o seu legado e leiam seus livros, não este mero blog.
Fonte: Rede Latino Americana Carta Capital
http://redelatinamerica.cartacapital.com.br/eduardo-galeano-1940-2015/

Su: 
* Para isso sugiro "O Livro dos Abraços". :)


As guerras mentem por Galeano

"As guerras dizem que ocorrem por nobres razões: a segurança internacional, a dignidade nacional, a democracia, a liberdade, a ordem, o mandato da civilização ou a vontade de Deus. 
Nenhuma tem a honestidade de confessar: "Eu mato para roubar"

"As guerras mentem. Nenhuma tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar. As sempre invocam motivos nobres. Matam em nome da paz, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia, e para que não reste dúvidas, se nenhuma dessas mentiras não for suficiente, aparecem os meios de comunicação dispostos a inventar novos inimigos imaginários, para justificar a conversão do mundo em um grande manicômio, e imenso matadouro.”


Vídeo:
https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=507524216262404&id=214561098892052

Fonte: via facebook "Em algum canto do espaço"
https://www.facebook.com/emalgumcantodoespaco/