o sol no cafofo! Rodo cotidiano, Rabiscos voadores... As anotações mais urgentes e mais tortas pelo tempo! "Eu sempre espero uma coisa nova de mim, eu sou um frisson de espera - algo está sempre vindo de mim ou fora de mim." C.
domingo, 18 de novembro de 2012
Loucura como autoafirmação
Pessoas normais tirando onda d loucas... Os loucos não tiram onda para se autoafirmar, pq sua loucura é aparente e normal.
sábado, 10 de novembro de 2012
Ney - Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
"Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
.
Me falou que o mal é bom e o bem cruel
.
.
Me falou que o mal é bom e o bem cruel
.
Ela me conta sem certeza tudo o que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancin' Days
.
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz, vivam sempre em comunhão
.
As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não"
Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancin' Days
.
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz, vivam sempre em comunhão
.
As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não"
(Tigresa - Ney Matogrosso)
Calcanhoto: por onde estará seu pensamento
Não sai da minha cabeça...
"...A uma hora dessas
por onde estará seu pensamento
Dará voltas na Terra
ou no estacionamento?
Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?
A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento
Terá os pés na areia
em pleno apartamento?
A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?
Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?"
Pensamento Calcanhoto! rs Não sai...
"...A uma hora dessas
por onde estará seu pensamento
Dará voltas na Terra
ou no estacionamento?
Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?
A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento
Terá os pés na areia
em pleno apartamento?
A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?
Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?"
Pensamento Calcanhoto! rs Não sai...
Kaiowás e perversidades do senso comum
O Mais resumido:
> O q te dá direitos? Existir!
- “mas, afinal, para que servem os índios?”
- “não sei; mas e você, pra que serve?”
> Índio é menos índio pq vai a escola?
> Subestimamos os índios
"até a Constituição de 1988 pelo menos, tratados como equivalentes a crianças, (...) os códigos jurídicos, [são] fechados à possibilidade do direito à diferença,
> Enfim, a estratégia retórica é clara: quem não contribui com o agronegócio e demais formas de produção capitalista em grande escala - (... tipo) usos não predatórios da terra – não contribui com a economia nacional. Em uma palavra: só serve para atrapalhar.
> Os índios resistem à ideia de que o centro do mundo passe a residir em outro lugar – em Brasília, por exemplo.
> Alienação pelo Estado:
[marginalizar é] , exatamente, que o Estado faz conosco.(...) somos ensinados (...) que as coisas realmente importantes acontecem em algum outro lugar, e que são muito complexas, e que por isso mesmo há alguém mais capacitado cuidando disso tudo, para que possamos viver nossas vidas em paz.
> Ação pela homogeinização:
O Estado brasileiro é incapaz de reconhecer valor nas diferenças, justamente porque a homogeneização coletiva é condição de existência do próprio Estado. Frequentemente é evocada a noção de atentado à soberania nacional quando o tema das diferenças é trazido ao centro da arena.
> Conclusão:
Manifestemo-nos hoje, enfaticamente, em defesa dos Guarani Kaiowá. (...) Como forma de protesto contra um Estado centralizador e autoritário. Como declaração de que não queremos juiz, médico, político ou professor nos dizendo como devemos viver nossas vidas. Essa função está reservada para os poetas – índios e não-índios, brancos e não-brancos."
Resumo Maior do texto:
"- “mas, afinal, para que servem os índios?”
- “não sei; mas e você, pra que serve?”
(...)
Por que é tão difícil aceitar a ideia de que quando o índio diz querer escola, ele não está fazendo nenhuma declaração sobre a sua identidade [ser ou não ser índio]? Porque, dentre muitas outras coisas, identidade é paranoia de não-índio, (...) é muito incômodo conviver com alguém que não compartilha nossas paranoias.
(...)
somos levados a ver os índios como pessoas “incompletas” (...) até a Constituição de 1988 pelo menos, tratados como equivalentes a crianças,
(...) O problema estava (e está) nos códigos jurídicos, fechados à possibilidade do direito à diferença, e não nos índios, que não são mais nem menos capazes que os não-índios, mas apenas diferentes em suas capacidades.
(...)
Enfim, a estratégia retórica é clara: quem não contribui com o agronegócio e demais formas de produção capitalista em grande escala – no caso, os índios e todos os demais grupos de alguma forma ligados a usos não predatórios da terra – não contribui com a economia nacional. Em uma palavra: só serve para atrapalhar.
(...) Há uma diferença fundamental entre a experiência de mundo dos índios e dos não-índios brasileiros, e isso está ligado ao “lugar” onde se encontram as coisas verdadeiramente importantes.
(...) Os índios resistem à ideia de que o centro do mundo passe a residir em outro lugar – em Brasília, por exemplo.
(...)O que a imensa maioria de nós, urbanitas ocidentalóides, não percebemos é que é isso, exatamente, que o Estado faz conosco. Assistimos à política e às outras formas de organização do nosso mundo – justiça, administração pública, economia – na qualidade de espectadores. Irritados, confusos, insatisfeitos, mas quintessencialmente espectadores.
(...) somos ensinados (...) que as coisas realmente importantes acontecem em algum outro lugar, e que são muito complexas, e que por isso mesmo há alguém mais capacitado cuidando disso tudo, para que possamos viver nossas vidas em paz.
(...)O Estado brasileiro é incapaz de reconhecer valor nas diferenças, justamente porque a homogeneização coletiva é condição de existência do próprio Estado. Frequentemente é evocada a noção de atentado à soberania nacional quando o tema das diferenças é trazido ao centro da arena.
(...)Manifestemo-nos hoje, enfaticamente, em defesa dos Guarani Kaiowá. Como forma de materializar nosso apreço pela liberdade e pelo direito à diferença. Como forma de protesto contra um Estado centralizador e autoritário. Como declaração de que não queremos juiz, médico, político ou professor nos dizendo como devemos viver nossas vidas. Essa função está reservada para os poetas – índios e não-índios, brancos e não-brancos."
______________________________________
Texto na íntegra:
> O q te dá direitos? Existir!
- “mas, afinal, para que servem os índios?”
- “não sei; mas e você, pra que serve?”
> Índio é menos índio pq vai a escola?
> Subestimamos os índios
"até a Constituição de 1988 pelo menos, tratados como equivalentes a crianças, (...) os códigos jurídicos, [são] fechados à possibilidade do direito à diferença,
> Enfim, a estratégia retórica é clara: quem não contribui com o agronegócio e demais formas de produção capitalista em grande escala - (... tipo) usos não predatórios da terra – não contribui com a economia nacional. Em uma palavra: só serve para atrapalhar.
> Os índios resistem à ideia de que o centro do mundo passe a residir em outro lugar – em Brasília, por exemplo.
> Alienação pelo Estado:
[marginalizar é] , exatamente, que o Estado faz conosco.(...) somos ensinados (...) que as coisas realmente importantes acontecem em algum outro lugar, e que são muito complexas, e que por isso mesmo há alguém mais capacitado cuidando disso tudo, para que possamos viver nossas vidas em paz.
> Ação pela homogeinização:
O Estado brasileiro é incapaz de reconhecer valor nas diferenças, justamente porque a homogeneização coletiva é condição de existência do próprio Estado. Frequentemente é evocada a noção de atentado à soberania nacional quando o tema das diferenças é trazido ao centro da arena.
> Conclusão:
Manifestemo-nos hoje, enfaticamente, em defesa dos Guarani Kaiowá. (...) Como forma de protesto contra um Estado centralizador e autoritário. Como declaração de que não queremos juiz, médico, político ou professor nos dizendo como devemos viver nossas vidas. Essa função está reservada para os poetas – índios e não-índios, brancos e não-brancos."
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Resumo Maior do texto:
"- “mas, afinal, para que servem os índios?”
- “não sei; mas e você, pra que serve?”
(...)
Por que é tão difícil aceitar a ideia de que quando o índio diz querer escola, ele não está fazendo nenhuma declaração sobre a sua identidade [ser ou não ser índio]? Porque, dentre muitas outras coisas, identidade é paranoia de não-índio, (...) é muito incômodo conviver com alguém que não compartilha nossas paranoias.
(...)
somos levados a ver os índios como pessoas “incompletas” (...) até a Constituição de 1988 pelo menos, tratados como equivalentes a crianças,
(...) O problema estava (e está) nos códigos jurídicos, fechados à possibilidade do direito à diferença, e não nos índios, que não são mais nem menos capazes que os não-índios, mas apenas diferentes em suas capacidades.
(...)
Enfim, a estratégia retórica é clara: quem não contribui com o agronegócio e demais formas de produção capitalista em grande escala – no caso, os índios e todos os demais grupos de alguma forma ligados a usos não predatórios da terra – não contribui com a economia nacional. Em uma palavra: só serve para atrapalhar.
(...) Há uma diferença fundamental entre a experiência de mundo dos índios e dos não-índios brasileiros, e isso está ligado ao “lugar” onde se encontram as coisas verdadeiramente importantes.
(...) Os índios resistem à ideia de que o centro do mundo passe a residir em outro lugar – em Brasília, por exemplo.
(...)O que a imensa maioria de nós, urbanitas ocidentalóides, não percebemos é que é isso, exatamente, que o Estado faz conosco. Assistimos à política e às outras formas de organização do nosso mundo – justiça, administração pública, economia – na qualidade de espectadores. Irritados, confusos, insatisfeitos, mas quintessencialmente espectadores.
(...) somos ensinados (...) que as coisas realmente importantes acontecem em algum outro lugar, e que são muito complexas, e que por isso mesmo há alguém mais capacitado cuidando disso tudo, para que possamos viver nossas vidas em paz.
(...)O Estado brasileiro é incapaz de reconhecer valor nas diferenças, justamente porque a homogeneização coletiva é condição de existência do próprio Estado. Frequentemente é evocada a noção de atentado à soberania nacional quando o tema das diferenças é trazido ao centro da arena.
(...)Manifestemo-nos hoje, enfaticamente, em defesa dos Guarani Kaiowá. Como forma de materializar nosso apreço pela liberdade e pelo direito à diferença. Como forma de protesto contra um Estado centralizador e autoritário. Como declaração de que não queremos juiz, médico, político ou professor nos dizendo como devemos viver nossas vidas. Essa função está reservada para os poetas – índios e não-índios, brancos e não-brancos."
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Texto na íntegra:
Kaiowás e perversidades do senso comum
Renzo Taddei
Colunista do Canal Ibase
Colunista do Canal Ibase
Nas últimas semanas recebi uma quantidade impressionante de solicitações, via redes sociais e e-mail, para manifestar meu apoio à causa dos Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul. Não me lembro, em minha experiência com redes sociais, de ter visto mobilização desse porte. Há pouco mais de uma semana, saiu decisão judicial a favor dos indígenas – ou, para colocar em termos mais precisos, revogando a reintegração de posse da área onde estão. Como atentou gente mais próxima ao movimento indígena, isso por si só não garante quase nada, apenas que violências maiores não sejam cometidas no curto prazo. De qualquer forma, não tive muito tempo para me alegrar com o que parecia uma vitória do potencial de mobilização descentralizada da sociedade civil: ao comentar a questão com um amigo, no Rio de Janeiro, recebi como resposta a pergunta, maliciosamente feita de forma a combinar ironia e seriedade em proporções iguais: “mas, afinal, para que servem os índios?” Desconcertado, não consegui articular nada, apenas retruquei: “não sei; mas e você, pra que serve?”
Não pude deixar de pensar no assunto nos dias que se seguiram. Mas, no caso, o assunto deixou de ser exatamente a situação dos Guarani Kaiowá, ou das especificidades de conflitos entre índios e não-índios, e passou a ser a situação de certa configuração de ideias do senso comum da população urbana – ou pelo menos das coletividades nas quais me insiro, no Rio de Janeiro e em São Paulo – sobre os índios, em primeira instância, e sobre aqueles que são irredutivelmente diferentes, em última. Obviamente esse é assunto complexo, e vou me limitar a apenas pontuar alguns temas que, creio, são importantes para iluminar o contexto no qual notícias sobre os conflitos envolvendo indígenas ganham significados, para a grande parcela da população brasileira que inevitavelmente participa disso tudo na posição de meros espectadores.
Sobre a natureza dos índios e não-índios
Certa vez, em uma aula de antropologia, na Escola de Comunicação da UFRJ, usei um exemplo hipotético de jovem índio que vinha à universidade estudar medicina. “Aí ele deixa de ser índio”, alguém disse. Na discussão que se seguiu, a opinião prevalecente era de que as expressões “índio urbano” e “índio médico”, usadas por mim, eram contradições em termos. Eu perguntei, então, se o fato de eu ser descendente de italianos, o que me dá, segundo a legislação italiana, o direito de “virar italiano”, faz com que eu deixe de ser alguma coisa – brasileiro, por exemplo. Confusão nas fisionomias. Por que eu posso virar italiano sem deixar de ser brasileiro, e ninguém vê problema nisso, e o índio não pode “virar” urbano sem deixar de ser índio? Concluímos – com vários autores estudiosos das populações indígenas – que, sem que as pessoas se deem conta, nós, urbanos, ocidentalóides, nos entendemos na maior parte do tempo como seres “culturais”, tendo algum controle sobre nossas identidades, portanto; enquanto isso, percebemos a essência indígena (se é que isso existe) como algo “natural”, sobre a qual eles não têm, nem podem ter, controle algum.
Nada mais natural, então, que pensar que lugar de índio é na floresta, e que índio tem que ser preservado, como se fosse parte da biodiversidade. Ou então índio deixa de ser índio e vira não-índio, arranja emprego, compra casa, toca a vida na cidade – se desnaturaliza. O problema é o índio que quer morar na cidade, ser médico, talvez, sem abandonar suas formas indígenas de entender o mundo e vida. Ou o índio que quer câmeras fotográficas, antibióticos, televisores, antenas parabólicas e escolas, mas não quer abrir mão da sua forma não-ocidental, e portanto não capitalista, de entender sua relação com a terra, por exemplo. Ou não quer abrir mão de sua forma não-ocidental, e portanto não marcada por um reducionismo materialista esvaziado e irresponsável, de relação com câmeras fotográficas, antibióticos, televisores, antenas parabólicas e escolas (é parte do senso comum que o que essas coisas são para mim são também para todos que delas fazem uso, o que não é verdade sequer para gente do mesmo grupo social). A questão se apresenta de forma pervasiva até entre gente politicamente progressista: na Cúpula dos Povos da Rio+20, uma grande amiga, ativista, me confidenciou ter ficado espantada ao ouvir de lideranças indígenas que eles gostariam de ter energia elétrica, saneamento, escolas. Eram afirmações que contrariavam suas expectativas “romanceadas”, nas suas próprias palavras, a respeito dos índios.
Por que é tão difícil aceitar a ideia de que quando o índio diz querer escola, ele não está fazendo nenhuma declaração sobre a sua identidade? Porque, dentre muitas outras coisas, identidade é paranoia de não-índio, mas não (necessariamente) paranoia de índio. Aqui começamos a chegar a algum lugar: é muito incômodo conviver com alguém que não compartilha nossas paranoias.
Uma das decorrências perversas desse estado de coisas é a forma como somos levados a ver os índios como pessoas “incompletas”, como sendo “menos” que os não-índios. Não é à toa que, juridicamente, os índios foram ao longo do século 20, até a Constituição de 1988 pelo menos, tratados como equivalentes a crianças, ou seja, como seres incapazes e que demandavam tratamento jurídico diferenciado, justamente em função dessa incapacidade. O problema estava (e está) nos códigos jurídicos, fechados à possibilidade do direito à diferença, e não nos índios, que não são mais nem menos capazes que os não-índios, mas apenas diferentes em suas capacidades. A mudança constitucional de 1988, como a própria questão dos Guarani Kaiowá demostra, ocorreu infelizmente muito mais de juris do que de fato.
Os muitos significados do verbo servir
Mas voltemos à questão sobre a “serventia” dos índios. O tema apareceu novamente em reportagem da revista Veja, edição de 4 de novembro. Replicando argumentos usados em edições anteriores ao tratar do tema, o texto (que de jornalístico não tem quase nada) mescla desinformação e preconceito, ao fazer uso, por exemplo, de argumentos como a suposta “trágica situação [dos índios] de silvícolas em um mundo tecnológico e industrial”, de afirmações como “[a] Funai também apoia o expansionismo selvagem”, e de acusações descabidas, como a de que os antropólogos ligados ao Conselho Indigenista Missionário querem transformar o sul do Mato Grosso do Sul numa “grande nação guarani”, justamente na “zona mais produtiva do agronegócio” do estado. Em 2010, a revista havia afirmado, através de um malabarismo estatístico de quinta categoria (digno de envergonhar até ruralistas medianamente sofisticados), que 90% do território brasileiro é ocupado ou destinado a áreas de preservação ambiental, comunidades indígenas, quilombolas e áreas de reforma agrária; “a agricultura e demais atividades econômicas terão apenas 8% de área para se desenvolver”. Enfim, a estratégia retórica é clara: quem não contribui com o agronegócio e demais formas de produção capitalista em grande escala – no caso, os índios e todos os demais grupos de alguma forma ligados a usos não predatórios da terra – não contribui com a economia nacional. Em uma palavra: só serve para atrapalhar.
Essa é uma questão, me parece, fundamental: é preciso discutir o conceito de serventia. Como a ideia de “servir” participa em nossas vidas, e na forma como aprendemos a entender e viver o mundo? Se a serventia dos que (supostamente) não estão integrados ao projeto da nação é um tema relevante – tanto ao pseudo-jornalismo da Veja como a certo senso comum urbano -, e nós, não-índios, (supostamente) integrados, afinal, servimos pra quê? E como isso afeta nossa compreensão das questões indígenas no Brasil contemporâneo, e mais especialmente o caso dos Guarani Kaiowá? Na minha opinião, isso tudo serve de pano de fundo contra o qual as audiências urbanas, dos grandes canais de mídia, distantes do Mato Grosso do Sul, atribuem sentido às notícias.
O caso dos Guarani Kaiowá traz à luz um elemento da vida cotidiana brasileira que é feito estrategicamente invisível na forma como somos ensinados a entender o mundo. Eles não querem ser “como nós”; tenho a impressão de que para a maioria da população urbana isso não apenas é contra intuitivo, mas figura como um choque, quase como uma afronta. Se eles gostam de fotografia, eletricidade, escolas e antibióticos, qual o problema, então?
Há uma diferença fundamental entre a experiência de mundo dos índios e dos não-índios brasileiros, e isso está ligado ao “lugar” onde se encontram as coisas verdadeiramente importantes. De acordo com trabalhos antropológicos que descrevem as visões de mundo e formas de vida de várias etnias indígenas sul-americanas, uma das características marcantes da vida indígena (para quem não é índio, obviamente), é a proximidade existencial das pessoas com os níveis mais altos da existência política e religiosa das suas sociedades. O poder político, em geral, não é algo que se manifeste em forma de hierarquias verticais, da forma como as entendemos, e provavelmente está ocupado por alguém com quem as pessoas da tribo tem relação pessoal direta, muitas vezes de parentesco. O mesmo se dá no que diz respeito à existência espiritual: está tudo logo ali, divindades, antepassados, espíritos, mediados pelas práticas do xamã, que também é conhecido de todos (ainda que, igualmente, talvez temido por todos). Há a percepção de que as coisas do mundo, alegrias e tristezas, sucessos e fracassos, são intrinsecamente ligadas à existência das pessoas da comunidade – os antropólogos chamam isso de relação de imanência.
O que é que a “integração” ao Brasil oferece, em contrapartida? Fundamentalmente, o deslocamento do centro de gravidade da existência para algum outro lugar, mais distante, abstrato, de difícil compreensão. Os índios resistem à ideia de que o centro do mundo passe a residir em outro lugar – em Brasília, por exemplo. Ou seja, resistem ao processo que os faz marginais. A marginalização, tomando a expressão de forma conceitual (ou seja, fazendo referência a quem está nas margens, nas bordas ou periferia), pode se dar deslocando-se alguém para a periferia do mundo, ou deslocando o centro de lugar, de modo que quem era central passa a ser periférico, e, portanto, marginal. De certa forma é exatamente isso que o Brasil oferece aos indígenas. Mas quem é que quer ser marginal?
O que a imensa maioria de nós, urbanitas ocidentalóides, não percebemos é que é isso, exatamente, que o Estado faz conosco. Assistimos à política e às outras formas de organização do nosso mundo – justiça, administração pública, economia – na qualidade de espectadores. Irritados, confusos, insatisfeitos, mas quintessencialmente espectadores. Somos mais capazes de interagir com um reality show do que com o mundo da política. Desde pequenos somos ensinados – e as políticas educacionais e conteúdos programáticos são desenhados cuidadosamente para tanto – que as coisas realmente importantes acontecem em algum outro lugar, e que são muito complexas, e que por isso mesmo há alguém mais capacitado cuidando disso tudo, para que possamos viver nossas vidas em paz. Ou seja, para que possamos não pensar em nada que não seja nos mantermos vivos e sermos economicamente ativos – e assim contribuir com o “projeto da nação”. Ou seja, o Estado reduz nossa vida ao mínimo – pão e circo, bolsa família e telenovela – para que as coisas funcionem e efetivamente aconteçam em algum outro lugar. Somos espectros de cidadãos.
Ou seja, a pergunta sobre para que servem as pessoas deve ser recolocada em outros termos: do que é que cada um de nós abre mão para “participar” do Brasil? Nós servimos para servir ao Estado. Somos todos marginais, e não nos damos conta disso.
O escândalo da questão indígena é a resistência que eles têm em aceitar os nossos mitos, ou as nossas ilusões – sobre o Brasil, por exemplo. Acostumados à experiência da autodeterminação, eles talvez tenham uma visão do que é o Brasil, como “projeto de nação”, que em muitos sentidos pode ser mais realista do que a de todos nós.
O Estado brasileiro só vai ser capaz de avançar na questão dos conflitos indígenas quando parar de tratar o tema da autodeterminação como anátema. E só o fará quando deixar de ter na tutela dos seus súditos sua razão de ser – ou seja, quando as elites políticas abandonarem a visão que tem de que o Brasil é fundamentalmente habitado por gente desqualificada, intelectualmente e moralmente inferior, e mal intencionada, e que demanda, portanto, o esforço do Estado para corrigir desvios e induzir a massa ao caminho produtivo. O Estado brasileiro é incapaz de reconhecer valor nas diferenças, justamente porque a homogeneização coletiva é condição de existência do próprio Estado. Frequentemente é evocada a noção de atentado à soberania nacional quando o tema das diferenças é trazido ao centro da arena.
E se um bocado de gente decide – muito arrazoadamente, por sinal – que a economianão deve mais crescer? Isso, dirão muitos, é obviamente um atentado à soberania nacional. Ou não? É, antes que tudo, e talvez apenas, um atentado à soberania do soberano. Pelo menos da tecnocrática soberania da ocasião.
Manifestemo-nos hoje, enfaticamente, em defesa dos Guarani Kaiowá. Como forma de materializar nosso apreço pela liberdade e pelo direito à diferença. Como forma de protesto contra um Estado centralizador e autoritário. Como declaração de que não queremos juiz, médico, político ou professor nos dizendo como devemos viver nossas vidas. Essa função está reservada para os poetas – índios e não-índios, brancos e não-brancos.
Renzo Taddei é professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutor em antropologia pela Universidade de Columbia, em Nova York. Dedica-se aos estudos sociais da ciência e tecnologia.
Fonte: http://www.canalibase.org.br/os-guarani-kaiowa-e-as-perversidades-do-senso-comum-dos-brancos-2/
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Em algumas tribos xamânicas...
"Em algumas tribos xamânicas, se você chegar ao curandeiro se queixando de desânimo, de depressão, ele irá te fazer 6 perguntas: - quando você parou de dançar?
- quando você parou de cantar? - quando você parou de acreditar? - quando você parou de se encantar pelas estórias?
- quando você parou para silenciar? - quando você parou de amar?"
- quando você parou de cantar? - quando você parou de acreditar? - quando você parou de se encantar pelas estórias?
- quando você parou para silenciar? - quando você parou de amar?"
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Maconha "sem barato" para tratamento de câncer
Matéria na íntegra:
Jairo Bouer
Diagnosticado com câncer, o garoto David Sabach, de 12 anos, está sendo tratado com um tipo especial de maconha medicinal desenvolvida por cientistas israelenses que ficou conhecida como "maconha sem barato".
Em sua casa, em Israel, David guarda fotografias que são um registro dramático de seu estado há dois anos. Na época, por causa da quimioterapia, ele perdeu todo o cabelo e seu peso chegou a metade do que é hoje.
David Sabach não podia andar por causa das dores nas pernas
"Eu costumava tomar morfina para a dor, mas o efeito não durava mais que alguns minutos", conta o menino.
Hoje, David recebe doses da maconha especial, adicionada a chocolates, biscoitos e bolos. "O efeito da cannabis dura todo o dia. Sinto-me muito melhor. Finalmente, posso andar sem chorar por causa da dor nas pernas", diz.
A maconha medicinal tem sido usada em Israel desde os anos 90 para o tratamento de uma série de doenças, entre elas câncer, Mal de Parkinson, esclerose múltipla e síndrome de Tourette.
Recentemente, porém, cientistas ligados a empresa Tikkun Olam desenvolveram um tipo especial dessa maconha neutralizando a substância THC (tetrahidrocanabinol), que gera os efeitos cognitivos e psicológicos da droga.
Além disso, a nova variedade da planta tem uma concentração mais elevada da substância canabidiol (CBD), um poderoso anti-inflamatório.
Nova imagem
O resultado é uma maconha com as mesmas propriedades medicinais da cannabis tradicional, mas sem o "barato" que faz com que muitos se oponham ao uso medicinal da planta.
"O canabidiol não se fixa às células do cérebro, então, após ingerir essa substância, o paciente não tem nenhum efeito colateral indesejado", diz Ruth Gallily, professora de imunologia na Universidade Hebraica de Jerusalém, que estuda os efeitos medicinais da cannabis há 15 anos
"Os pacientes não têm 'barato' e não ficam confusos. Podem dirigir, trabalhar e fazer suas tarefas do dia a dia."
A cannabis é considerada uma droga ilegal em Israel, mas a Tikkun Olam obteve uma licença especial do Ministério da Saúde para desenvolver a maconha medicinal e cultiva diversas variedades da planta em estufas na Galileia, no norte de Israel.
De acordo com Zachi Klein, diretor de pesquisa da empresa, mais de 8.000 doentes em Israel já são tratados com cannabis, recebendo a substância após mostrarem receitas médicas autorizadas pelo Ministério da Saúde.
Klein explica que pelo menos três categorias de pacientes devem se beneficiar da nova variedade de maconha medicinal.
Primeiro, as pessoas que precisam continuar a trabalhar durante o tratamento. Segundo, os idosos, porque eles seriam muito sensíveis ao THC. Por fim, crianças como David.
Críticas
Para alguns críticos da nova "maconha sem barato", porém, é a combinação do THC com o CBD que trás mais benefícios para os pacientes.
Um paciente de câncer de 52 anos que pediu para não ser identificado, por exemplo, explicou à BBC por que acredita que a maconha tradicional é a ideal para o seu tratamento.
"(A cannabis tradicional) não só ajuda a aplacar a dor mas também contribui para que tenhamos mais vontade de comer", disse o paciente, que teve um tumor no estômago removido há cinco meses e combina o uso de maconha com quimioterapia.
"O corpo não pode lutar sem combustível e um dos efeitos maravilhosos da maconha é que ela causa o que é conhecido como "larica" (fome), que para quem faz quimioterapia é uma benção."
Site: http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/bbc/2012/11/06/menino-com-cancer-e-tratado-com-maconha-sem-barato.htm
Menino com câncer é tratado com maconha 'sem barato'
Jairo Bouer
Diagnosticado com câncer, o garoto David Sabach, de 12 anos, está sendo tratado com um tipo especial de maconha medicinal desenvolvida por cientistas israelenses que ficou conhecida como "maconha sem barato".
Em sua casa, em Israel, David guarda fotografias que são um registro dramático de seu estado há dois anos. Na época, por causa da quimioterapia, ele perdeu todo o cabelo e seu peso chegou a metade do que é hoje.
David Sabach não podia andar por causa das dores nas pernas
"Eu costumava tomar morfina para a dor, mas o efeito não durava mais que alguns minutos", conta o menino.
Hoje, David recebe doses da maconha especial, adicionada a chocolates, biscoitos e bolos. "O efeito da cannabis dura todo o dia. Sinto-me muito melhor. Finalmente, posso andar sem chorar por causa da dor nas pernas", diz.
A maconha medicinal tem sido usada em Israel desde os anos 90 para o tratamento de uma série de doenças, entre elas câncer, Mal de Parkinson, esclerose múltipla e síndrome de Tourette.
Recentemente, porém, cientistas ligados a empresa Tikkun Olam desenvolveram um tipo especial dessa maconha neutralizando a substância THC (tetrahidrocanabinol), que gera os efeitos cognitivos e psicológicos da droga.
Além disso, a nova variedade da planta tem uma concentração mais elevada da substância canabidiol (CBD), um poderoso anti-inflamatório.
-
Funcionária da Tukkun Olam prepara maconha medicinal
O resultado é uma maconha com as mesmas propriedades medicinais da cannabis tradicional, mas sem o "barato" que faz com que muitos se oponham ao uso medicinal da planta.
"O canabidiol não se fixa às células do cérebro, então, após ingerir essa substância, o paciente não tem nenhum efeito colateral indesejado", diz Ruth Gallily, professora de imunologia na Universidade Hebraica de Jerusalém, que estuda os efeitos medicinais da cannabis há 15 anos
"Os pacientes não têm 'barato' e não ficam confusos. Podem dirigir, trabalhar e fazer suas tarefas do dia a dia."
A cannabis é considerada uma droga ilegal em Israel, mas a Tikkun Olam obteve uma licença especial do Ministério da Saúde para desenvolver a maconha medicinal e cultiva diversas variedades da planta em estufas na Galileia, no norte de Israel.
De acordo com Zachi Klein, diretor de pesquisa da empresa, mais de 8.000 doentes em Israel já são tratados com cannabis, recebendo a substância após mostrarem receitas médicas autorizadas pelo Ministério da Saúde.
Klein explica que pelo menos três categorias de pacientes devem se beneficiar da nova variedade de maconha medicinal.
Primeiro, as pessoas que precisam continuar a trabalhar durante o tratamento. Segundo, os idosos, porque eles seriam muito sensíveis ao THC. Por fim, crianças como David.
Críticas
Para alguns críticos da nova "maconha sem barato", porém, é a combinação do THC com o CBD que trás mais benefícios para os pacientes.
Um paciente de câncer de 52 anos que pediu para não ser identificado, por exemplo, explicou à BBC por que acredita que a maconha tradicional é a ideal para o seu tratamento.
"(A cannabis tradicional) não só ajuda a aplacar a dor mas também contribui para que tenhamos mais vontade de comer", disse o paciente, que teve um tumor no estômago removido há cinco meses e combina o uso de maconha com quimioterapia.
"O corpo não pode lutar sem combustível e um dos efeitos maravilhosos da maconha é que ela causa o que é conhecido como "larica" (fome), que para quem faz quimioterapia é uma benção."
Site: http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/bbc/2012/11/06/menino-com-cancer-e-tratado-com-maconha-sem-barato.htm
Pm contra PM: mobilização pra não invadirem moradias ao plantarem UPPs
Agora sim... PM contra PM...
Acho q ninguém aqui é a favor do tráfico como ele funciona, né? Submissão, nada coletivo, tortura.
Recorrer ao estado contra ele mesmo? Duvidoso... mas conscientizar sempre é bom e a ONG da matéria é conhecida. O problema é: pra q serve a polícia e como ela serve! Aí pensar outra coisa porque quem realmente vale a pena na poliça não tem como agir contra a ideologia dela ("obedeça sem pensar")... Lembrando q a violência não é só do capitalismo... O capitalismo é mais uma forma de legalização d várias violências (o q não o desculpa em coisíssima nenhuma). Acho q não dá pra crer no mito do homem bom apenas corrompido, né? Não se pode dizer q as massas não desejaram o nazismo...
Acho q ninguém aqui é a favor do tráfico como ele funciona, né? Submissão, nada coletivo, tortura.
Recorrer ao estado contra ele mesmo? Duvidoso... mas conscientizar sempre é bom e a ONG da matéria é conhecida. O problema é: pra q serve a polícia e como ela serve! Aí pensar outra coisa porque quem realmente vale a pena na poliça não tem como agir contra a ideologia dela ("obedeça sem pensar")... Lembrando q a violência não é só do capitalismo... O capitalismo é mais uma forma de legalização d várias violências (o q não o desculpa em coisíssima nenhuma). Acho q não dá pra crer no mito do homem bom apenas corrompido, né? Não se pode dizer q as massas não desejaram o nazismo...
Facebook: http://www.facebook.com/direitoparaquem
"Não existe um "direito à segurança", mas sim a segurança de direitos. Segurança não é um elemento conceitual. A segurança é sempre "de que?". Do direito à vida, à liberdade, à dignidade sexual, à inviolabilidade do domicílio. Assegurar direitos é o verdadeiro objeto da "segurança pública". No entanto, o discurso policial-midiático promove a palavra "segurança" ao posto de primazia do desejo do povo. Queremos segurança! E por essa pretensa "segurança" (que ninguém explica muito bem o que é), viola-se direitos de uma categoria inteira de cidadãos. Pela "segurança" a polícia invade casas sem mandado, atira por trás, prende sem suspeita, e viola os direitos que deveriam se assegurados (pela "segurança"). No Rio, estamos diante deste paradoxo.
Favelas do Rio se antecipam à UPP e lançam mobilização para que policiais não invadam moradias:
http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/11/06/favelas-do-rio-se-antecipam-a-upp-e-lancam-mobilizacao-para-que-policiais-nao-invadam-moradias.htm
Site da campanha: http://redesdamare.org.br/?p=5937"
Favelas do Rio se antecipam à UPP e lançam mobilização para que policiais não invadam moradias:
http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/11/06/favelas-do-rio-se-antecipam-a-upp-e-lancam-mobilizacao-para-que-policiais-nao-invadam-moradias.htm
Site da campanha: http://redesdamare.org.br/?p=5937"
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Matéria na íntegra:
Favelas do Rio se antecipam à UPP e lançam mobilização para que policiais não invadam moradias:
06.11.12
Hanrrikson de Andrade
Cientes de que o Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, deve receber uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) até o fim do ano, moradores e ativistas lançaram uma campanha de conscientização, nesta terça-feira (6), sobre possíveis abusos policiais durante o processo de ocupação.
Cerca de cem voluntários da ONG Redes da Maré, responsável pelo projeto, deram início à mobilização, nesta manhã. Os ativistas percorreram várias ruas da favela Nova Holanda sob olhares desconfiados dos traficantes de drogas que atuam na região. Houve receptividade por parte dos moradores.
No total, mais de 50 mil adesivos com a mensagem "Conhecemos nossos direitos! Não entre nesta casa sem respeitar a legalidade da ação", endereçada aos policiais militares e agentes de segurança pública que participarão da implementação da UPP, serão colados nas janelas e portas de mais de 45 mil moradias das 16 comunidades que formam o Complexo da Maré. A próxima será a do Parque União.
Segundo a diretora da Redes da Maré, Eliana Silva, o objetivo do projeto é inserir os moradores no contexto pré-ocupação policial, tornando-os "agentes ativos no processo de conquista ao direito à segurança pública".
"Eles são atores centrais e a razão de ser da política de pacificação, e não meros espectadores do processo", disse Silva, que afirmou ter participado de uma reunião com o secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, antes de agendar a primeira atividade da campanha.
"Nós participamos de uma reunião com o secretário Beltrame, com o comandante-geral da PM [coronel Erir Costa Filho], com o comandante das UPPs, coronel Róbson Rodrigues, onde apresentamos a campanha. Mostramos que se trata de uma campanha focada no diálogo. Colocar uma voz que as pessoas, em tese, acham que não pode ter. Eles foram receptivos a essa ação. Reconheceram que se trata de algo inédito e inovador", completou.
Questionado se o poder público teria "aprovado" a ideia, o coordenador-geral da ONG Observatório de Favelas, Jaílson Silva, afirmou que a Secretaria de Segurança Pública e as forças policiais "reconheceram o direito" à livre manifestação, mas que não há qualquer participação governamental na elaboração e na execução da campanha.
"Não se trata de uma aprovação. Eles reconhecem que a gente tem esse direito, enquanto sociedade civil, e não se sentem agredidos pela campanha. Eles reconhecem que a questão da segurança também passa pelos moradores. A cúpula da segurança já superou a ideia de achar que a defesa dos direitos desses moradores é a mesma coisa que defender direito de bandido. (...) A questão é a forma como eles enfrentam o problema das drogas, pois termina violando o direito dos moradores. É contra isso que nós lutamos. Há outras formas de enfrentar isso", disse.
Já o diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil, Átila Roque, afirmou ser necessário interromper uma suposta "lógica de guerra", que surgiria, segundo ele, em razão das megaoperações articuladas para expulsar traficantes das favelas e instaurar "a chamada pacificação".
No decorrer da caminhada dos voluntários da ONG, era possível observar a movimentação dos criminosos, sempre armados e munidos de radiotransmissores. Ao passarem por uma esquina na qual há uma boca de fumo, fotógrafos que acompanhavam o grupo foram orientados pelos próprios traficantes a guardar as câmeras.
Segundo voluntários da Redes da Maré, há bem perto da sede da ONG uma rua que dividiria o controle territorial da comunidade entre duas facções rivais. Por esse motivo, o grupo se limitou a contornar o quarteirão referente ao local no qual os manifestantes iniciaram a caminhada. "É a nossa faixa de gaza", afirmou um estudante, que preferiu não se identificar.
Entre os poucos moradores que se disponibilizaram para entrevistas, houve opiniões divergentes. Para o morador Alessandro Carvalho, que não especificou sua idade, a abordagem policial faz com que muitos se sintam "humilhados".
"Eles fazem isso mesmo. Entram na favela sem respeitar ninguém. Se você não tem um emprego, se não tem uma carteira assinada, eles te humilham, invadem sua casa, desrespeitam sua família. Dou todo apoio para a campanha", disse ele, antes que a entrevista fosse interrompida em função da aproximação de um jovem armado, possivelmente pertencente ao tráfico de drogas da região.
Já o auxiliar de pedreiro José Henrique Zeferino, que mora há 40 anos na Nova Holanda, afirmou nunca ter sido abordado de forma truculenta por policiais. No entanto, ele reclamou do preconceito em relação aos moradores das favelas.
"Comigo nunca fizeram nada. Já me pararam lá fora algumas vezes, mas sempre de forma educada. Lá fora, todo mundo que mora em favela é bandido, é perigoso. A gente precisa mostrar que também tem povo trabalhador aqui", disse.
"A gente tem tem recebido muitas denúncias nos últimos dois meses, desde que dois jovens morreram aqui. Houve muita indignação a respeito da forma como os policiais entraram, roubando dinheiro das pessoas. Teve uma senhora que chegou a ir na delegacia. Duas ou três vezes por semana", afirmou a coordenadora da ONG.
"Um morador do Parque União nos disse que hoje os policiais arrombaram portas utilizando chaves mestras. Eles estão entrando dessa forma absolutamente invasiva, entram sem autorização dos moradores. A pessoa chega do trabalho e encontra sua casa invadida. Isso é inadmissível. Imagine se isso acontecesse no Leblon", questionou Jaílson Silva, referindo-se ao bairro nobre da zona sul do Rio.
Cerca de cem voluntários da ONG Redes da Maré, responsável pelo projeto, deram início à mobilização, nesta manhã. Os ativistas percorreram várias ruas da favela Nova Holanda sob olhares desconfiados dos traficantes de drogas que atuam na região. Houve receptividade por parte dos moradores.
No total, mais de 50 mil adesivos com a mensagem "Conhecemos nossos direitos! Não entre nesta casa sem respeitar a legalidade da ação", endereçada aos policiais militares e agentes de segurança pública que participarão da implementação da UPP, serão colados nas janelas e portas de mais de 45 mil moradias das 16 comunidades que formam o Complexo da Maré. A próxima será a do Parque União.
Segundo a diretora da Redes da Maré, Eliana Silva, o objetivo do projeto é inserir os moradores no contexto pré-ocupação policial, tornando-os "agentes ativos no processo de conquista ao direito à segurança pública".
"Eles são atores centrais e a razão de ser da política de pacificação, e não meros espectadores do processo", disse Silva, que afirmou ter participado de uma reunião com o secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, antes de agendar a primeira atividade da campanha.
"Nós participamos de uma reunião com o secretário Beltrame, com o comandante-geral da PM [coronel Erir Costa Filho], com o comandante das UPPs, coronel Róbson Rodrigues, onde apresentamos a campanha. Mostramos que se trata de uma campanha focada no diálogo. Colocar uma voz que as pessoas, em tese, acham que não pode ter. Eles foram receptivos a essa ação. Reconheceram que se trata de algo inédito e inovador", completou.
Questionado se o poder público teria "aprovado" a ideia, o coordenador-geral da ONG Observatório de Favelas, Jaílson Silva, afirmou que a Secretaria de Segurança Pública e as forças policiais "reconheceram o direito" à livre manifestação, mas que não há qualquer participação governamental na elaboração e na execução da campanha.
"Não se trata de uma aprovação. Eles reconhecem que a gente tem esse direito, enquanto sociedade civil, e não se sentem agredidos pela campanha. Eles reconhecem que a questão da segurança também passa pelos moradores. A cúpula da segurança já superou a ideia de achar que a defesa dos direitos desses moradores é a mesma coisa que defender direito de bandido. (...) A questão é a forma como eles enfrentam o problema das drogas, pois termina violando o direito dos moradores. É contra isso que nós lutamos. Há outras formas de enfrentar isso", disse.
Já o diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil, Átila Roque, afirmou ser necessário interromper uma suposta "lógica de guerra", que surgiria, segundo ele, em razão das megaoperações articuladas para expulsar traficantes das favelas e instaurar "a chamada pacificação".
Controle do tráfico
Durante a manifestação da Redes da Maré, na manhã desta terça-feira (6), a reportagem do UOL percorreu as ruas, becos e vielas da comunidade Nova Holanda a fim de conversar com os moradores. No entanto, muitos optaram pelo silêncio, pois temem possíveis represálias do tráfico de drogas.No decorrer da caminhada dos voluntários da ONG, era possível observar a movimentação dos criminosos, sempre armados e munidos de radiotransmissores. Ao passarem por uma esquina na qual há uma boca de fumo, fotógrafos que acompanhavam o grupo foram orientados pelos próprios traficantes a guardar as câmeras.
Segundo voluntários da Redes da Maré, há bem perto da sede da ONG uma rua que dividiria o controle territorial da comunidade entre duas facções rivais. Por esse motivo, o grupo se limitou a contornar o quarteirão referente ao local no qual os manifestantes iniciaram a caminhada. "É a nossa faixa de gaza", afirmou um estudante, que preferiu não se identificar.
Entre os poucos moradores que se disponibilizaram para entrevistas, houve opiniões divergentes. Para o morador Alessandro Carvalho, que não especificou sua idade, a abordagem policial faz com que muitos se sintam "humilhados".
"Eles fazem isso mesmo. Entram na favela sem respeitar ninguém. Se você não tem um emprego, se não tem uma carteira assinada, eles te humilham, invadem sua casa, desrespeitam sua família. Dou todo apoio para a campanha", disse ele, antes que a entrevista fosse interrompida em função da aproximação de um jovem armado, possivelmente pertencente ao tráfico de drogas da região.
Já o auxiliar de pedreiro José Henrique Zeferino, que mora há 40 anos na Nova Holanda, afirmou nunca ter sido abordado de forma truculenta por policiais. No entanto, ele reclamou do preconceito em relação aos moradores das favelas.
"Comigo nunca fizeram nada. Já me pararam lá fora algumas vezes, mas sempre de forma educada. Lá fora, todo mundo que mora em favela é bandido, é perigoso. A gente precisa mostrar que também tem povo trabalhador aqui", disse.
Denúncias sobre abusos
De acordo com a diretora da Redes da Maré, Eliana Silva, as denúncias de moradores que teriam sofrido com supostos excessos relacionados à abordagem policial aumentaram nos últimos dois meses. As últimas ocorreram nesta manhã, pouco antes da caminhada feita pelos ativistas."A gente tem tem recebido muitas denúncias nos últimos dois meses, desde que dois jovens morreram aqui. Houve muita indignação a respeito da forma como os policiais entraram, roubando dinheiro das pessoas. Teve uma senhora que chegou a ir na delegacia. Duas ou três vezes por semana", afirmou a coordenadora da ONG.
"Um morador do Parque União nos disse que hoje os policiais arrombaram portas utilizando chaves mestras. Eles estão entrando dessa forma absolutamente invasiva, entram sem autorização dos moradores. A pessoa chega do trabalho e encontra sua casa invadida. Isso é inadmissível. Imagine se isso acontecesse no Leblon", questionou Jaílson Silva, referindo-se ao bairro nobre da zona sul do Rio.
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