o sol no cafofo! Rodo cotidiano, Rabiscos voadores... As anotações mais urgentes e mais tortas pelo tempo! "Eu sempre espero uma coisa nova de mim, eu sou um frisson de espera - algo está sempre vindo de mim ou fora de mim." C.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Lobão: Mas não tente se matar Pelo menos essa noite não!
Essa Noite Não
Lobão
A cidade enlouquece sonhos tortos
Na verdade nada é o que parece ser
As pessoas enlouquecem calmamente
Viciosamente, sem prazer
A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não
As cortinas transparentes não revelam
O que é solitude, o que é solidão
Um desejo violento bate sem querer
Pânico, vertigem, obsessão
A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não
Tá sozinha, tá sem onda, tá com medo
Seus fantasmas, seu enredo, seu destino
Toda noite uma imagem diferente
Consciente, inconsciente, desatino
A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não
Su:
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Caicó... tudo rejeita e quer
"Ah! Caicó arcaico
Em meu peito catolaico
Tudo é descrença e fé
Ah! Caicó arcaico
Meu cashcouer mallarmaico*
Tudo rejeita e quer
...
Sexo no-iê**"
Em meu peito catolaico
Tudo é descrença e fé
Ah! Caicó arcaico
Meu cashcouer mallarmaico*
Tudo rejeita e quer
...
Sexo no-iê**"
(A Prosa Impúrpura do Caicó - Chico César)
Su:
*Mallarmé – escritor francês da escola simbolista (considerado o poeta das inquietações, das dúvidas) junto com “maico” alteração de Malcon - , norte-americano, liderança negra na luta contra o segregacionismo nas décadas de 60 e 70.
**Sexo no-iê, sexo infinito, alusão à Seicho no-iê, filosofia japonesa cujo significado é “lar do progredir infinito”, conforme esclarece Taniguchi (1979:94)
*Mallarmé – escritor francês da escola simbolista (considerado o poeta das inquietações, das dúvidas) junto com “maico” alteração de Malcon - , norte-americano, liderança negra na luta contra o segregacionismo nas décadas de 60 e 70.
**Sexo no-iê, sexo infinito, alusão à Seicho no-iê, filosofia japonesa cujo significado é “lar do progredir infinito”, conforme esclarece Taniguchi (1979:94)
domingo, 26 de agosto de 2012
Se eu não quiser negociar... nunca estarei com ninguém "só quero o que atiça, o impraticável"
Se eu não quiser negociar, se eu não quiser me misturar, se eu não quiser abrir um pouco mão d mim, nunca encontrarei o outro... nunca estarei com ninguém para além d uma auto-afirmação!
O OUTRO
só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível
não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível
só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível
não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível
eu quero
o outro"
Chacal.
O OUTRO
só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível
não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível
só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível
não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível
eu quero
o outro"
Chacal.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
No retrato que me faço... Quintana
No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança, ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança. No final, que restará?
Um desenho de criança, terminado por um louco. Mário Quíntana
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança, ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança. No final, que restará?
Um desenho de criança, terminado por um louco. Mário Quíntana
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Poeta Sérgio Vaz - poesia e entrevista!
Poeta Sérgio Vaz
Ele tem milhões de projetos nas periferias de SP. Trabalha mais com poesia e fala da transformação da arte e formas de possibilitar isso.
Não leiam as coisas q escrevi antes d ver os vídeos senão quebrará as surpresas! :)
Vídeo bacana: poesia do Poeta Sérgio Vaz
Entrevista com Marília Gabriela: sobre a Cooperifa (na periferia de SP)
Fala de como ele era diretamente taxado na periferia por fazer algo diferente sendo q na classe média fazer poesia era mais aceitável. O curioso "fechamento" da periferia q os meninos da Orquestra de Cordas da Grota tb passaram ao começarem a tocar violino na comunidade.
Poesia no bar! Outro público!
Na periferia as coisas ou acontecem na igreja ou no boteco.
Literatura periférica.
Ele é produtor cultural.
A poesia, a arte, tem poder de transformação. As referencias da periferia são outras. Jovem sujeito a efeitos dos exemplos do traficante, mas tb do poeta!
A idéia do boteco é a mais permeável. O estado não deu nenhum espaço público.
Distraídos venceremos.Aprende literatura sem q alguém diga "vc tem q ler". Ambiente propício.
"Não odeio meu inimigo. Eu amo minha causa"
"Briga acaba. Luta continua"
É mt ligado a poesia da música popular.
Começa a trabalhar a palavra quando ela vai lapidando a pessoa.
Assuntos vários: pobreza, violência, ... Depois trabalhando vai passando pra outros assuntos d poesia bonita tb.
Trab tb com presidiários fazendo oficinas de poesia.
Acredito na educação como saída. Queremos q vão pra universidade. Poesia e escrever é lazer. O Caminho é a escola.
Mídia age d modo preconceituoso. Veja todos os programas policiais. Pessoas q mentiam onde moravam pra conseguir emprego.
Sarau nas Escolas. Praticar o q fala. Dar depoimentos d quando não gostavam de ler.
Levamos pra FEBEM e curtiram pra nossa surpresa. Só trancar não adianta. O estado tb devia ser punido por não dar educação.
Costuma dizer q Rap é Ritmo e poesia. (REP!!!!!)
Ouvir a letra. As vezes a gente canta e não ouve o q diz. As vezes a música rouba a cena.
Projeto tb Rima Falada. Quando vc recita uma parte d uma música mts não reconhecem a música mesmo quando é famosa.
Iniciativa d distribuir 500 livros por evento. Para agradecer a comunidade por ouví-los. Se der Nietzsche o cara nunca mais vai ler na vida. Demos Paulo Coelho, Lima Barreto.
Poesia no ar: Soltamos poesia em gás helio com endereço e telefone pra cidade receber! Tanta bala perdida, né? Melhor uma poesia!
Vou num lugar. Vejo algo legal e me pergunto: pq q na periferia não tem? (Daí q vem os projetos.)
Projeto Cinema na Laje: Fazer com o cinema o q fez com a literatura. Não Holywood. O shopping ainda assusta. Cada um quer estar no seu habitat. Vai passar "Um encontro com Milton Santos". Ver cinema d outro lugar. Documentários produzidos ali tb. Suprir cineastas da periferia tb. Cidadania através da sétima arte. Tem mt gente produzindo seus curtas e documentários.
Vivo da minha produção cultural. Sou o camelô da cultura.
Época eleitoral. Os projetos ajudam a pop a ficar mais espertas? Quem lê enxerga melhor. A pessoa tem q descobrir. Não temos mt esse trabalho. Mas o conhecimento produz isso nessa pessoa. A pessoa tem q estar antenada.
Ainda existe um controle exercito no lugar q a gente mora. Nível de saúde, desemprego, segurança.
Analfabetismo é a maior perversidade. É a cegueira. Vc tem olhos bons e não enxerga. Basta vc ver rnas escolas estaduais!
Leu um livro sobre Tim Mais q Nelson Motta escreveu. Ele faz parte da periferia. Anos 70. Bailes Blacks. Era a úncia música q chegava na periferia. Paulo Diniz. Só chegava James Brown. Marvin Gray. Dizia q era americanizada. Não chegava Chico Buarque, Mozart, Caetano.
Tim Maia era um dos caras q tinha essa imunidade periférica.
Escreveu um manifesto da antropofagia periférica.A arte q liberta não vem da mão q escraviza. A periferia nos une pela dor, pela cor e pelo amor.
Enquanto eles capitalizam a realidade eu socializo meus sonhos.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Pela metade - Drummond
Le chat et l’oiseau
[Jacques Prévert]
[Jacques Prévert]
Un village écoute désolé
Le chant d’un oiseau blessé
C’est le seul oiseau du village
Et c’est le seul chat du village
Qui l’a à moitié dévoré
Et l’oiseau cesse de chanter
Le chat cesse de ronronner
Et de se lécher le museau
Et le village fait à l’oiseau
De merveilleuses funérailles
Et le chat qui est invité
Marche derrière le petit cercueil de paille
Où l’oiseau mort est allongé
Porté par une petite fille
Qui n’arrête pas de pleurer
Si j’avais su que cela te fasse tant de peine
Lui dit le chat
Je l’aurais mangé tout entier
Et puis je t’aurais raconté
Que je l’avais vu s’envoler
S’envoler jusqu’au bout du monde
Là-bas où c’est tellement loin
Que jamais on n’en revient
Tu aurais eu moins de chagrin
Simplement de la tristesse et des regrets
Il ne faut jamais faire les choses à moitié.
Le chant d’un oiseau blessé
C’est le seul oiseau du village
Et c’est le seul chat du village
Qui l’a à moitié dévoré
Et l’oiseau cesse de chanter
Le chat cesse de ronronner
Et de se lécher le museau
Et le village fait à l’oiseau
De merveilleuses funérailles
Et le chat qui est invité
Marche derrière le petit cercueil de paille
Où l’oiseau mort est allongé
Porté par une petite fille
Qui n’arrête pas de pleurer
Si j’avais su que cela te fasse tant de peine
Lui dit le chat
Je l’aurais mangé tout entier
Et puis je t’aurais raconté
Que je l’avais vu s’envoler
S’envoler jusqu’au bout du monde
Là-bas où c’est tellement loin
Que jamais on n’en revient
Tu aurais eu moins de chagrin
Simplement de la tristesse et des regrets
Il ne faut jamais faire les choses à moitié.
O gato e o passarinho
[Jacques Prévert, tradução de Carlos Drummond de Andrade]
[Jacques Prévert, tradução de Carlos Drummond de Andrade]
A aldeia escuta desolada
o canto da ave maltratada.
É o único pássaro da aldeia
e foi o único gato da aldeia
que o devorou pela metade.
A ave deixa de cantar.
O gato deixa de roncar
e de lamber o próprio focinho.
A aldeia faz ao passarinho
maravilhosos funerais,
e o gato, que foi convidado,
segue o caixãozinho de palha
onde o pássaro se amortalha,
conduzido por uma menina
que não para nunca de chorar.
— Se soubesse que isso te faria sofrer tanto,
diz-lhe o bichano,
eu o teria comido todo
e te contaria, depois,
que ele havia batido asas,
batido asas para o fim do mundo,
para um lugar tão longe
que ninguém nunca voltou de lá.
Tu sofrerias muito menos,
só um pouquinho de tristeza
e outro pouquinho de saudade.
Nunca devemos fazer
as coisas pela metade.
o canto da ave maltratada.
É o único pássaro da aldeia
e foi o único gato da aldeia
que o devorou pela metade.
A ave deixa de cantar.
O gato deixa de roncar
e de lamber o próprio focinho.
A aldeia faz ao passarinho
maravilhosos funerais,
e o gato, que foi convidado,
segue o caixãozinho de palha
onde o pássaro se amortalha,
conduzido por uma menina
que não para nunca de chorar.
— Se soubesse que isso te faria sofrer tanto,
diz-lhe o bichano,
eu o teria comido todo
e te contaria, depois,
que ele havia batido asas,
batido asas para o fim do mundo,
para um lugar tão longe
que ninguém nunca voltou de lá.
Tu sofrerias muito menos,
só um pouquinho de tristeza
e outro pouquinho de saudade.
Nunca devemos fazer
as coisas pela metade.
In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Carlos Drummond de Andrade: Poesia Traduzida. São Paulo: CosacNaif, 2011.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Debaixo D'agua
Maria Bethânia
Debaixo d'água tudo era mais bonito
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água se formando como um feto
Sereno, confortável, amado, completo
Sem chão, sem teto, sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Sereno, confortável, amado, completo
Sem chão, sem teto, sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Debaixo d'água por encanto sem sorriso e sem pranto
Sem lamento e sem saber o quanto
Esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar
Sem lamento e sem saber o quanto
Esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água ficaria para sempre, ficaria contente
Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
todo dia
Todo dia, todo dia
Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
todo dia
Todo dia, todo dia
Debaixo d'água, protegido, salvo, fora de perigo
Aliviado, sem perdão e sem pecado
Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar
Aliviado, sem perdão e sem pecado
Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar
Debaixo d'água tudo era mais bonito
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Agora que agora é nunca
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar
Agora a última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais
Agora a chuva evapora
Agora ainda não choveu
Agora tenho mais memória
Agora tenho o que foi meu
Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou aqui
Agora sinto muita sede
Agora já é madrugada
Agora diante da parede
Agora falta uma palavra
Agora o vento no cabelo
Agora toda minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca
Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Agora o filho que não tive
Agora a criança sou eu
Agora sinto um gosto doce
Agora vejo a cor azul
Agora a mão de quem me trouxe
Agora é só meu corpo nu
Agora eu nasco lá de fora
Agora minha mãe é o ar
Agora eu vivo na barriga
Agora eu brigo pra voltar
Agora
Agora
Agora
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar
Agora a última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais
Agora a chuva evapora
Agora ainda não choveu
Agora tenho mais memória
Agora tenho o que foi meu
Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou aqui
Agora sinto muita sede
Agora já é madrugada
Agora diante da parede
Agora falta uma palavra
Agora o vento no cabelo
Agora toda minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca
Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Agora o filho que não tive
Agora a criança sou eu
Agora sinto um gosto doce
Agora vejo a cor azul
Agora a mão de quem me trouxe
Agora é só meu corpo nu
Agora eu nasco lá de fora
Agora minha mãe é o ar
Agora eu vivo na barriga
Agora eu brigo pra voltar
Agora
Agora
Agora
Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=QeTelMRMsM8
"Sempre pensara em ir
caminho do mar.
Para os bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que se sente o mesmo
e exigente chamar.
"Sempre pensara em ir
caminho do mar.
Para os bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que se sente o mesmo
e exigente chamar.
(...)"
João Cabral de Melo Neto
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